Acho que só cobrir tiroteio é tarefa mais delicada –para um repórter– que ouvir parentes de alguém que morreu.
Com a vantagem, para as guerras e missões perigosas, de ser algo prestigiado, emocionante. Já entrevistar sofredores não passa de ser constrangedor (mas deveria passar, se a gente parasse de vestir a carapuça errada, como argumento mais pra frente).
Aqui neste blog, uma dezena de repórteres já comentou como é chato –apesar de necessário– e deu dicas de como reduzir o incômodo. Incômodo tanto para quem pergunta como para quem responde, diga-se.
Mas não tenho muita paciência pra essa gente que acusa jornalistas de serem hienas e urubus, como fizeram leitores no blog do Mauricio Stycer.
Por que, afinal, ouvir família e amigos das vítimas?
1. Porque as pessoas importam. Se um avião de controle remoto cair vazio, quem liga? A notícia é que ali havia gente cuja vida acabou abruptamente –a delicada coluna de ontem do Ruy Castro abre uma janela interessante sobre isso (aqui, na íntegra, para assinantes. Reproduzo abaixo os dois últimos parágrafos, mas tentem lê-la toda, que vale a pena):
(…) fragmentos dessas mensagens costumam ser encontradas em destroços de aviões caídos em terra. É por esses retalhos calcinados que nos damos conta de que o drama pessoal de cada vítima de um acidente aéreo é maior do que a fria estatística da soma dos mortos no mesmo acidente.
Na tragédia do voo AF 447, comovemo-nos com o casal rumo à lua-de-mel em Paris e com o alemão que iria tratar dos papéis para se casar com uma brasileira. Mas havia também empresários, professores e executivos, que viajavam a negócios, a estudos ou para receber prêmios -enfim, para um luminoso futuro próximo. E outros cujas histórias pessoais, talvez riquíssimas, nunca chegaremos a conhecer.
2. Porque os parentes podem querer falar. Afinal, essa é uma forma de registrar –e perpetuar– essas “histórias pessoais talvez riquíssimas”. Vejam estas fotos na Folha de hoje. Os parentes levaram as fotos de suas vítimas. Querem mostrá-las. Talvez queiram falar sobre elas. Por que recusar-lhes a chance? O que custa perguntar? O máximo que pode acontecer é o pai (mãe, irmão, filhos, amigos) dizerem não –e aí a gente respeita e ponto final.

A questão não é “se”, mas “como”
Como já ensinaram muitos colegas nos posts abaixo, o que importa nessas horas é a gente respeitar as pessoas. Mas atenção: respeitar tanto seu direito de calar quanto o de falar.
- tente contatar primeiro os que parecem menos abalados
- desculpe-se por abordá-los naquele momento. Mostre-se solidário. Pergunte se eles gostariam de falar naquele momento.
- respeite negativas, mas deixe um telefone ou e-mail para o caso de eles quererem falar noutro momento
- menos é mais. Pergunte menos e ouça mais. Respeite o tempo e os silêncios do entrevistado, tenha calma e compostura
- e mais estas dicas todas que a Cris resumiu anteontem
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