O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

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Um homem de meia-idade retorna à casa onde passou a infância, em Sussex, na Inglaterra, para um funeral. Sua antiga casa não existe mais, no entanto, ele é atraído para a fazenda no fim da estrada, onde, aos sete anos, conheceu uma garota especial chamada Lettie Hempstock, que morava com a mãe e a avó. Ele não pensava em Lettie há décadas, mas, ao se sentar à beira do lago (que a menina chamava de oceano), o passado há tempos esquecido voltou à tona. E é um passado estranho e assustador demais para ter sido real…

Quarenta anos antes, um homem cometeu suicídio dentro de um carro roubado (o carro pertencia ao pai do protagonista) no fim da estrada que ia até a fazenda das Hempstock. Sua morte foi o estopim para uma série de acontecimentos com consequências inimagináveis. A “escuridão” foi despertada, atingindo diretamente o menino, e Lettie – com sua magia, amizade e a sabedoria digna de alguém com muito mais de onze anos – prometeu protegê-lo, não importava o que acontecesse.

Durante a leitura, a história me pareceu uma metáfora para os medos e as inseguranças que rondam a vida de uma criança – e, por que não, um adulto? – e como ela se enxerga diante desse cenário. Ela se vê sozinha? Tem alguém com quem contar? Os pais realmente a protegerão em qualquer circunstância? A fábula, cativante e ao mesmo tempo sombria, é um convite para se repensar medos, angústias, incertezas, vida e morte, amor, família…

  • “Esse é o problema com as coisas vivas. Não duram muito. Gatinhos num dia, gatos velhos no outro. E depois ficam só as lembranças. E as lembranças desvanecem e se confundem, viram borrões…”
  • “Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro eles se parecem com o que sempre foram.  Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho.”
  • “Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro.”

É uma história sobre magia, o poder das histórias e como enfrentar a escuridão dentro de cada um de nós. É sobre medo, amor, morte e famílias. Mas, fundamentalmente, espero que, na essência, seja um romance sobre sobrevivência.

Neil Gaiman

Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Ano de lançamento: 2013
Nº de páginas: 208
Editora: Intrínseca
www.intrinseca.com.br/neilgaiman/ooceanonofimdocaminho/

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Rede social e a autoafirmação do eu

Rede social, como Facebook e Instagram, é um daqueles lugares “mágicos” que faz, hoje em dia, Hollywood – famosa por seu glamour e encantamento – parecer boba. É no mundo virtual, acessível a todos por meio de telas de smartphones e computadores, e não mais nas telas da TV ou do cinema, que as pessoas têm buscado pelo sonho, pelo deslumbramento, por alguém que lhe sirva como referencial de beleza e sucesso. É no Insta da blogueira A, no canal do youtuber B, no blog de moda e beleza da C que estão o objetivo de vida de muitas pessoas – ser como essa pessoa é, ter os objetos que aquela pessoa tem, conhecer os lugares que ela frequenta, ganhar o dinheiro que ela ganha, ser tão famosa quanto ela é.

Particularmente, não vejo grandes problemas em acompanhar esses meios e, em alguns momentos – por que não? -, buscar inspiração para a vida (não importa o tipo de inspiração: profissional, de beleza, de moda, de autoajuda ou apenas para descontrair um pouco). Afinal, essas pessoas, muitas vezes, têm acesso a coisas e pessoas que os “meros mortais” que as acompanham não têm. O perigo, no entanto, está na busca insana por um estilo de vida “fora do comum” e do alcance de todos.

As redes sociais, que deveriam unir pessoas e facilitar sua interação, passaram a abrigar gente desesperada por comentários, likes, views e aprovação de conhecidos ou não. Pessoas completamente desconhecidas postam detalhes de suas vidas como se não houvesse amanhã… e como se alguém realmente se importasse. Fotos de suas casas, de seus guarda-roupas, de seus carros, do que comem ou bebem, onde vão e com quem, fazem stories no Insta e no Facebook sobre seu dia a dia (quase sempre irrelevante e comum), postam selfies e mais selfies, retratam a si mesmas como verdadeiros guerreiros só porque estão comendo um potinho de salada de fruta em vez de uma barrinha de chocolate, porque fizeram uma corrida de 10 km ou acordaram cedo para puxar ferro na academia… tudo sempre acompanhado por diversas hashtags (#felicidade #amigos #avidaebela #fitness…) e por “marcações” de conhecidos, amigos, famosos e/ou marcas/grifes, para que estes, em especial, mas não somente, vejam que vida sensacional elas levam. Na busca por reconhecimento, esquecem-se do bom senso e da moderação, essenciais à saúde mental, e da segurança física e digital.

É tanta carência, exibicionismo e narcismo ao mesmo tempo que chega a dar dó e a causar preocupação. O que importa para o mundo o que você comeu no café da manhã? O que muda na vida dos outros se você usou moletom cinza ou calça de lycra roxa na academia? Quem liga para o fato de você ter derrubado seu iPhone de R$ 3 mil no chão e a tela ter trincado? E daí que seu filho de sete anos quis te acompanhar na corrido de hoje cedo? Quem liga para a marca de cerveja que você está bebendo?

Esses espaços virtuais deveriam ser um local para interação social (afinal, é essa a ideia, não é?) e não para desfile de egos, o que tende a acabar com amizades e “matar” o propósito das redes de unir pessoas. Contudo, também não se trata de encarar as redes sociais com seriedade e mal humor, nem esperar que só se poste sobre política, economia ou questões sociais. A questão é que as pessoas estão perdendo o controle das próprias vidas tentando impressionar gente que nem sabe quem elas são (nem elas sabem quem são essas pessoas tão “desejadas”). É inegável que existem coisas que realmente surpreendem e chamam a atenção por sua beleza, por serem diferentes, “mágicas”, e que a gente queira compartilhar “com o mundo”. Mas tudo tem que chamar a atenção? Sério?

Se só de ver como as pessoas, de modo geral, vivem à base de selfies, como se preocupam em encontrar o melhor ângulo/iluminação para fazer uma foto de um prato de comida, como criam cenários e “ilusões” para ludibriar seus seguidores e passar a ideia de felicidade/sucesso/encantamento é exaustivo, imagine como deve ser para elas próprias, especialmente quando não atingem o objetivo de chamar a atenção alheia. Imagina a frustração e a angústia que isso causa! Deve ser uma sensação muito ruim se empenhar tanto em uma coisa e não obter o retorno desejado.

Essa necessidade de afirmação de si próprio como alguém relevante e indispensável ao mundo (reafirmação da autoconfiança) e a “competição social” (estimulada pela necessidade de destaque ou para se sobressair a algo ou alguém que, em algum momento, lhe tenha causado inveja) estão ultrapassando os limites não apenas do bom senso, mas também da sanidade mental. Há estudos de importantes universidades mostrando que o excesso de selfies, por exemplo, é indicativo de distúrbio mental. Há pessoas que sofrem de verdade, a ponto de perder o apetite, não dormir, ter crise de abstinência como usuários de drogas por falta de interação e reconhecimento nas redes sociais. “Por que não curtiram meu look do dia?”, “Por que não estão comentando sobre o prato de comida (escolha a nacionalidade) que acabei de postar no Insta?”… e aí vem a solidão e a depressão, dois dos maiores problemas deste século, no qual as pessoas estão conectadas por meio de diversas redes e, contraditoriamente, distantes ao mesmo tempo, cada uma vivendo dentro de sua própria bolha, tentando, de todos os modos possíveis, chamar a atenção dos demais.

Desejo pro ano que vem…

Botei uma flor na janela…

Que nesse novo ano que está chegando, a gente possar ser “mais”, sentir mais, viver mais, amar mais, trabalhar mais. Que esse “mais” tenha o nosso coração e a nossa vontade de fazer sempre o melhor – para nós e para aqueles que nos cercam. Que a vida possa ser mais bonita e leve, mesmo diante dos obstáculos que a vida nos impõe em alguns momentos, e que saibamos ter jogo de cintura nessas horas de “aperto”, mas sin perder la ternura e a fé. Que exista esperança e bondade no coração de todos; que haja mais – muito mais – respeito às diferenças, às crenças, às raças, às religiões (Deus deve prevalecer sobre qualquer “placa de igreja”), às necessidades de cada um, sem que isso “atropele” ou anule os demais. Que saibamos ser mais humanos e nos doemos mais àqueles que precisam de ajuda – crianças, idosos, homens, mulheres, animais, natureza -, e que julguemos menos, muito menos, as falhas ou supostas falhas alheias (não podemos nos esquecer de que também erramos). Que sejamos criaturas melhores, em todos os sentidos: filhos e pais melhores, amigos melhores, profissionais melhores, cidadãos melhores, vizinhos melhores…

Que 2019 seja um ano de revolução e evolução em nossas vidas, um período de prosperidade, de amor, harmonia, muita saúde, felicidades, esperanças renovadas… Que seja O ano para todos nós!

Feliz Ano Novo!
Muita paz para todos nós!

O ano em que nada ficou no lugar…

Passei o ano de 2018 inteiro com a pergunta “q q ta contecenu?” na cabeça. Não foi uma vez, nem duas, nem dez vezes que me peguei questionando o que diabos estava acontecendo com a minha vida, com o meu trabalho, com o meu país, com a minha família…

Dois mil e dezoito foi um ano estranho, angustiante, depressivo, massacrante. Foi um ano de muitos baixos e poucos altos. Um período em que a saúde de todos foi testada, e muitas vezes reprovada; foi um ano em que o dinheiro sumiu como água que cai em solo seco; em que tive a triste oportunidade de conhecer o caráter de muitas pessoas, não apenas após um período eleitoral conturbado, marcado por preconceitos “finalmente” escancarados, machismo, racismo, misoginia, homofobia etc., mas, também, no campo profissional, onde algumas máscaras caíram (o que me deixou bastante decepcionada, porque não imaginava como algumas pessoas poderiam ser tão baixas) e no campo familiar, em que quase todas as máscaras caíram e eu pude ver quem, de fato, são as pessoas ao meu redor (pouquíssimas se salvaram…).

Foi um ano que matou muitas das minhas esperanças (no ser humano, no núcleo familiar, no futuro); que revelou caráteres duvidosos; que deixou às claras como as pessoas são ruins, mesquinhas, egoístas, egocêntricas, incapazes de agradecer o bem que recebem, mas sempre prontas a apontar o dedo para qualquer mínimo deslize dos outros ou a proferir ofensas, de qualquer tipo, sem pensar nas consequências, como se todos tivessem a obrigação de ouvir e aceitar; que mostrou como o dinheiro corrompe pessoas sem caráter; que mostrou que, não é porque se tem o mesmo sangue correndo nas veias, que as pessoas precisam viver grudadas – aprendi em 2018, que laços familiares não são o suficiente para que o amor e o respeito existam; foi um ano que demandou muito esforço para não sair brigando com todos aqueles que vi fazendo conscientemente algum tipo de bobagem; que fez muitas relações serem cortadas; que me mostrou que amigos nem sempre são tão amigos quanto dizem (não entendo quem “cobra”, mas não se esforça a dar nada em troca; que inveja as conquistas – qualquer conquista – do outro em vez de comemorá-las). Enfim, 2018 foi um ano em que perdi boa parte da minha fé na humanidade.

Trintessetei

Enfim, cheguei aos 37 anos – uma daquelas idades que ninguém perde tempo pensando a respeito, afinal, não tem o mesmo peso dos 18, 30, 40 anos. Trinta e sete só um número no meio do caminho entre uma data significativa e outra.

Mas o fato de estar me aproximando dos 40 trouxe um aspecto (psicológico) importante, ao menos para mim, que me fez ter maior clareza sobre as lutas que quero lutar, sobre o que vale a pena eu me dedicar (trabalho, amigos, família…), sobre quem eu quero perto de mim e, também, sobre a brevidade da vida.

Talvez seja a tão falada maturidade que, de fato, deu as caras por aqui (apesar de eu achar, há tempos, que era uma pessoa madura), talvez seja a percepção de que o tempo realmente está voando e que não tenho mais desculpas para ficar desperdiçando esse tempo com coisas inúteis ou pouco frutíferas (existe uma música que diz: “só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder…”), talvez seja falta de paciência para aguentar pessoas negativas e/ou enfrentar situações que me desgastam e não acrescentam nada. Ou pode ser um misto de tudo isso.

O fato é que os 37 mal chegaram e me trouxeram essa percepção clara e positiva do rumo que devo dar à minha vida. Não sei ao certo qual caminho devo trilhar (não acredito que haja apenas um caminho a ser seguido), mas sei onde quero chegar e o que quero para minha vida – e assumo que parte (felizmente pequena) do que tenho hoje ao meu redor não me serve mais, não por ser ruim, mas por não fazer parte dos meus “novos” planos de vida. Sabendo o que é bom ou não para minha vida fica fácil colocar a “sabedoria” que essa nova fase está me proporcionando.

Tenho grandes planos para mim: tenho sonhos, tenho desejos, tenho força de vontade para correr atrás de cada um deles. Então, por que me manter ligada a “bolas de ferro” que atrasam meu crescimento? Por que não deixar para trás aqueles e/ou aquilo que não me fazem bem? Acredito que maturidade seja isso: saber escolher as minhas lutas e saber abrir mão/deixar de lado o que não serve mais – sem crises, sem inimizades, sem sofrimento; só deixar ir…

Espero que este novo ciclo da minha vida seja de evolução pessoal e profissional; de leveza na alma; de prosperidade espiritual e material; de libertação das amarras, de velhas ideias e de sentimentos ruins; de afastamento de tudo o que não me faz bem, de tudo o que suga minhas energias; de cair, mas levantar em seguida, sem amarguras ou arrependimentos, e de crescimento; de sonhar e realizar; de viver plenamente; de ser feliz e conquistar o mundo.

O erro é seu, não meu!

Quem disse que ouvir crítica é fácil?
Quem disse que dar feedbacks é moleza?

Se ambos fossem fáceis – de dar e receber – talvez o mundo fosse um lugar um pouco melhor, uma vez que um poderia falar o que pensa (com moderação e gentileza, claro) e o outro poderia ouvir e analisar (de coração e mente abertos), para, juntos, chegarem a uma conclusão positiva e construtiva.

Mas o ser humano, esse bichinho egoísta e muitas vezes irracional, não consegue encontrar o meio-termo entre o que foi falado e o que foi ouvido (aquela história de “sou responsável pelo que falo, mas não pelo que você entende” é muito verdadeira…) e cria, por incapacidade de interpretação de texto e, acima de tudo, por soberba e arrogância, uma enorme tempestade em copo d’água.

O que o outro falou sobre mim, ou sobre você, está realmente errado?
Não faz mesmo nenhum sentido?
Será que demos motivo, ainda que de modo inconsciente, para falarem sobre nós?
Não vale – mesmo que não concordemos num primeiro momento – uma reflexão a respeito?
Somos tão superiores e corretos a ponto de não precisarmos melhorar?

Ao mesmo tempo em que juramos santidade e inocência, não pensamos duas vezes antes de, com o dedo em riste, bradar a quem queira ouvir, com ou sem razão, que o outro errou. É muito fácil dizermos “você errou”, “você fez isso”, “você fez aquilo”, mas em momento algum paramos para pensar em nossos atos e suas consequências. Tomamo-nos como indefectíveis e o resto do mundo como problemáticos.

Um autoexame de consciência – honesto, realista, com o intuito real de ser alguém melhor (de verdade, não apenas dentro da nossa cabecinha) – cairia muito bem de vez em quando…

Autocura

A escrita sempre foi minha forma favorita de fuga da realidade. Escrever representa muito mais do que colocar letras no papel, mais do que criar histórias; escrever é exorcizar traumas, angústias, frustrações, infortúnios. É terapia, um jeito para não enlouquecer. Escrever é, desde sempre, minha maneira de sobreviver em meio ao caos cotidiano – muitas vezes causado por terceiros.

Mas, às vezes, o caos vem com tanta força, arrastando para dentro de si tudo o que encontra no caminho – sonhos, expectativas, desejos, família, amigos, trabalho… Quando, enfim, me dou conta do redemoinho que passou sobre mim, muitas vezes, é tarde. Sobrou pouca coisa (às vezes, ou nada) no lugar.

Nem sempre o caos é ruim, devo ressaltar. É assustador e incômodo, afinal, me tira da zona de conforto, do meu mundinho, e me obriga a buscar novas formas de sobreviver nesse novo cenário. Mas, mesmo que me leve em direção à minha própria evolução, é exaustivo ter de passar por tudo isso – e por tantas e tantas vezes. Exaustivo o bastante para me fazer não ter forças sequer para escrever. A cabeça e o coração ficam tão confusos, doloridos, sem rumo, que chega a ser difícil organizar pensamentos e emoções para colocá-los no papel, num processo – talvez infantil, talvez não – de autocura.