Equilíbrio e reorganização

Tenho sentido necessidade de silêncio, de reclusão, de afastamento do mundo. Não existe um motivo em particular – não terminei um relacionamento, não perdi o emprego, não estou com uma doença grave, não perdi ninguém que eu amava. Apenas estou cansada e precisando me reequilibrar física e mentalmente.

As pessoas, de modo geral, têm me cansado de uma maneira que não consigo explicar em poucas linhas. Sinto o mundo cada vez mais frio, as pessoas estão mais cruéis e muito mais amargas (em relação a tudo), os relacionamentos (pessoais, profissionais, familiares) estão cada vez mais distantes. Sinto que as redes sociais não têm mais nada de social em suas postagens e que esses espaços virtuais se tornaram verdadeiros campos de guerra ideológicos, em que todos os usuários tentam se mostrar mais espertos e mais corretos que os outros – mesmo que seus comentários e suas postagens sejam moralmente questionáveis, mesmo que seus comportamentos sejam vergonhosos na vida off-line.

Ver o mundo sob essa ótica tem feito mal a mim, à minha sanidade; tem me causado angústia, ansiedade e depressão. Ficar afastada de muitas coisas e muitas pessoas tem sido a solução mais simples de colocar em prática e mais eficaz para resolver, mesmo que parcialmente, o meu problema. O caos continuará lá fora – tenho consciência disso -, mas aqui dentro, na minha cabeça e na minha alma, as coisas ficarão mais serenas, mais suaves. É preciso ter – e não perder – equilíbrio para sobreviver em um mundo cada dia mais insano.

Tenho necessidade de silêncio e, de vez em quando, afasto-me para organizar a cabeça. […] É a maneira que tenho, silenciosa e discreta, de sair organizadamente da confusão que tantas vezes me assalta por dentro.
(Ricardo Lísias)

Pesado, obscuro, incerto

Estamos vivendo dias difíceis, obscuros e incertos. O mundo, de modo geral, está pesado, mais violento e sombrio. As pessoas estão cada vez mais frias, desumanas, amarguradas, machucadas.

Não sei sobre a sua vida, mas tenho certeza que você tem seus problemas e suas feridas para curar, assim como eu. Estamos tão presos aos problemas (do dia a dia, do trabalho, da família…), vivenciando-os tão intensamente, que, por vezes, acabamos nos tornando parte dele.

Às vezes, sinto como se toda a negatividade do mundo fosse parte de nós, como se estivéssemos vivendo em um “mundo invertido”, nebuloso, desconhecido, brutal, do qual não se pode escapar.

Estamos vivendo tempos estranhos, que demandam de nós muita dedicação e empenho para mantermos a fé (em Deus, na vida, em qualquer coisa) e nossa sanidade. É uma sensação intensa de que tudo acontece ao mesmo tempo. Problemas e descontentamentos chegam aos montes, de modo que, por vezes, não conseguimos processar os acontecimentos e apenas nos deixamos levar pela maré, engolidos pelo turbilhão que se forma à nossa volta.

Precisamos voltar a respirar, a ter serenidade, a enxergar o mundo e as pessoas de maneira mais leve e positiva. Como? Não sei. Realmente não sei. Mas sigo tentando, do meu jeito.

Para sobreviver à toda insanidade à minha volta, tenho optado pela reclusão. Tenho me afastado de muitas pessoas – não definitivamente (na maioria dos casos), mas até sentir que a poeira baixou, que o caos diminuiu (porque não são só os nossos problemas que nos afetam, mas os alheios também, e aí fica pesado demais lidar com esse acúmulo). Tenho me dado um tempo do mundo e estou lidando com um problema de cada vez. Não dá para abraçar o mundo e resolver tudo ao mesmo tempo. Não há tempo suficiente para fazer tudo, então, do jeito que posso, vou resolvendo situações ou adiando resoluções. A única certeza que tenho é que, no final, independentemente de meu empenho, sairei perdendo alguma coisa – amigos, saúde física e/ou mental, tempo, dinheiro, família… -, mas ok. Já entendi que essa é a regra do jogo.

Amizades

Às vezes, amigos podem passar anos sem se ver e, ao se encontrar, sentem que nada mudou. A conversa flui bem, os assuntos brotam, há novidades para se contar, há coisas a se perguntar…

Mas, outras vezes, o reencontro pode mostrar que muita coisa mudou – talvez tudo. A conversa empaca, nada de novo ou interessante é comentado, não há interesse em saber sobre a vida do suposto amigo… Percebe-se que a amizade, um dia forte, resumiu-se a coleguismo de redes sociais.

E tudo bem. De verdade, tudo bem.

As pessoas mudam com o tempo, com as experiências vividas, com os tombos que levam durante seu percurso. Coisas, pessoas, assuntos… deixam de ser interessantes; músicas deixam de fazer sentido; desejos se alteram; sonhos se realizam ou são substituídos por outros; amores começam e terminam… Por que seria diferente com amizades?

A vida é dividida entre quem sou e a sorte

Há cerca de um ano e meio, voltando de uma viagem de carnaval, uma pessoa, entre uma brincadeira e outra, entre uma conversa séria e outra, comentou comigo que se considerava uma pessoa sortuda, no sentido efetivo do termo: uma pessoa abençoada pelo destino, o qual contribui para que tudo dê certo na vida, independentemente de mérito ou esforço. Na hora eu ri, claro. Sorte, para mim, sempre foi uma conjunção de fatores, como dedicação, esforço, habilidade; não meramente “sorte” ao acaso. Mas a pessoa insistiu que era, de verdade, uma pessoa de sorte. Ok, por que contrariar a criatura, não é?

Antes de embarcamos em Maceió rumo a São Paulo, todas as televisões do aeroporto indicavam a possibilidade de pegarmos uma bela de uma chuva durante o voo. Sinceramente, não dei a mínima – a menos que fosse uma tempestade, mas, nesse caso, era provável que o avião nem decolasse, então, por que me preocupar? A tal pessoa, sentada ao meu lado, com um sorriso de deboche, como quem duvidasse da informação recebida, disse que até embarcarmos a tal chuva não passaria de uma história – “não vai chover durante o voo, eu sei que não vai, porque eu tenho sorte”. De novo o tal papo furado de sorte. Por que esse sujeito insistia nessa baboseira? Ele realmente acreditava nisso ou era apenas para aporrinhar as minhas ideias?!

Pois bem. Fizemos um voo de volta com total tranquilidade, sem chuva ou turbulência; aliás, havia um baita sol durante todo o voo. Pensei: “que coincidência, hein?”. Ao desembarcarmos, o comentário inevitável: “não disse que eu tenho sorte?”. Ele riu sem que eu sequer me desse ao trabalho de responder, pegou sua mala (a primeira a aparecer na esteira) e foi embora, sabe-se lá para onde. Quase meia hora depois, peguei minhas duas malas e as arrastei aeroporto afora.

Hoje, tanto tempo depois, me peguei pensando nessa história de sorte. Não sei como o tema veio à minha cabeça, mas sei que não consegui parar de pensar nisso. Fernando Pessoa disse, em Novas Poesias Inéditas, que “A vida é dividida entre quem sou e a sorte”, ou seja, duas coisas distintas, separadas entre acaso feliz (sorte) e vida real (quem eu sou). Concordo com sua visão, mas, ainda assim, a dúvida persiste: essa tal de sorte realmente existe? Se existe, por que beneficia apenas a alguns em detrimento de tantos outros? Como ela, se de fato existe, seleciona seus beneficiados? Se isso é algo real, é  um tanto injusta e frustrante, não acha? Tanta gente precisando de ajuda por aí – dos mais variados tipos de ajuda – e essa tal sorte bancando a “santa” apenas com um ou com outro.

Precisamos conversar sobre limites

Conversando com uma amiga, há poucos meses, ela perguntou, retoricamente, “por que algumas pessoas acham que têm o direito de me ofender ou de me tratar como alguém de segunda linha? Será que, em algum momento, eu dei a elas esse direito? Será que eu me coloquei nessa posição e não percebi?”.

Acordei pensando nisso hoje. Acordei pensando em alguns acontecimentos da última semana. Em pessoas, em situações, em comentários – direcionados a mim e a outros, mas que acabei ouvindo sem querer. Acordei lembrando que não soube o que responder a ela na ocasião.

Não acredito que, como essa amiga perguntou, se tenha dado aos outros o direito de destratar alguém e, tampouco, que esse alguém tenha se colocado voluntariamente em posição de desvantagem ou inferioridade. Ao contrário. Essas pessoas – as ofensoras –, por excesso de liberdade e consequente falta de limites/noção ou, quiçá, falta de caráter (sim, por que não?) é que se deram ao luxo de tratar a ela, a mim, a você de maneira equivocada e desleal. Elas simplesmente acreditam que podem fazer isso.

Entendo – e concordo – que esse comportamento seja frustrante, que desgaste, que mine as nossas forças em determinadas situações, mas é preciso reconhecer que, além da culpa que recai sobre essas criaturas, também temos a nossa parcela – embora não acredite que seja como ela falou: “…dei a elas esse direito… me coloquei nessa posição…”.

Por vezes, pecamos ao não corrigir na hora quem nos destrate por medo de perdermos a amizade; por receio de criar algum mal-estar entre nós e os outros; por vergonha de dizer em voz alta que nos sentimos humilhados ou ofendidos e, assim, virarmos alvo de chacota; e por mais uma infinidade de motivos que só nós, os agredidos, podemos saber.

Por vezes, “compramos” a (falsa) ideia que essas pessoas nos vendem, de que somos de segunda linha, de que somos inferiores, de que podemos (e devemos) aguentar as “porradas” que recebemos, de que somos pessoas fracas se não aguentarmos as “brincadeiras” que fazem (não importa o tipo de brincadeira).

Por vezes, também, nos esquecemos de que não somos obrigados(as) a aguentar nada que não nos faça bem; nos esquecemos de que não somos saco de pancada de ninguém e nos omitimos quando, na verdade, deveríamos dar um basta àquela situação.

Dane-se se a reação – de defesa, de imposição de limites, de contra-ataque, de saco cheio  – confronta os interesses de quem falou mais do que deveria. Dane-se mesmo. É preciso – e me incluo nesse grupo – aprender a impor condições, a bater o pé quando não se concorda com algo, a reagir sempre que alguém nos fizer mal. Precisamos aprender a estabelecer limites para tudo e para todos: amigos, colegas, familiares, relacionamentos, chefes…

Precisamos disso para o nosso bem, não para o mal dos outros. Isso não é nada além de amor-próprio e senso de preservação.

Ame a si mesmo

A maior tortura – Florbela Espanca

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite,
E não tenho nem sombra em que me acoite,
E não tenho uma pedra em que me deite!
Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços!
Perco-me em mim na dor de ter vivido!
E não tenho a doçura duns abraços
Que me façam sorrir de ter nascido!
Sou como tu um cardo desprezado
A urze que se pisa sob os pés,
Sou como tu um riso desgraçado!
Mas a minha Tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para concretizar a minha Dor!

Política, esgotamento e segue o baile…

Praticamente todo dia, enquanto vejo minha timeline no Facebook, eu me prometo que naquele dia – pelo menos naquele dia – eu vou olhar as postagens de cunho político de amigos, conhecidos e páginas jornalísticas, ler (ou só passar o olho nas manchetes, dependendo do caso) e, em seguida, fingir demência e não comentar nada. Não porque eu me importe com a opinião dos outros a respeito do que eu comentei, não que eu me preocupe com a possibilidade de criar “climão” com aqueles que não concordam com a minha visão sobre o circo político que se instalou no Brasil, mas porque eu estou esgotada. Mental e fisicamente.

Estou cansada de ver tanta bobagem sendo feita, de tanta malandragem sendo mascarada (enquanto se tenta, a todo custo, alardear e esfregar na cara dos outros, não importando que sejam esses outros, os erros de gestões passadas). Estou enojada de ver homens-moleques-mimados brincando e brigando com o papai-que-brinca-de-ser-chefe-de-Estado; presidente que só consegue fingir que governa, mas apenas desgoverna o país, por meio de uma conta no Twitter; de ver esse monte de diz-que-me-diz daqueles que deveriam estar efetivamente governando este país, mas estão apenas aproveitando sua chance de continuar o saque aos nossos cofres iniciado anteriormente; de ouvir que a “mamata acabou”, mas ver que isso é mentira e quem prometeu esse fim está se esbaldando com o nosso dinheiro e com cartão corporativo, enquanto tenta tirar nossos direitos trabalhistas e previdenciários; de ver tanta gente que eu sempre considerei inteligente e do bem comprando ideias mirabolantes e infundadas, muitas vez por mau caratismo mesmo, comprovando que são os novos “cidadãos de bem” (não existiu ditadura… não sou homofóbico, mas não quero que o Brasil vire um “mundo gay”… a terra é plana… menina veste rosa e menino veste azul…).

Não chegamos sequer ao final do quarto mês de mandato dessa gente, mas tem sido tão cansativo, frustrante e desgastante ver tanta cretinice de uma vez, como uma avalanche. De merda, no caso. São tantos absurdos divulgados diariamente, que não dá tempo de processar tudo, não dá tempo de digerir, de tentar entender o que realmente querem com essa ou aquela ação. São tantas cortinas de fumaça lançadas sobre nós – porque não posso acreditar que Damaris, filhos Bolsonaros e tantos outros mimimis sejam situações reais, que sejam pessoas que realmente agem como agem por mera imbecilidade; só podem ter a função de desviar o foco dos cidadãos e da imprensa para futilidades, enquanto todos deveriam estar atentos e vigilantes às infames atitudes tomadas por esse governo estranho e descabido.

Estou de saco cheio disso tudo; estou cansada de ver e ouvir tanta estupidez e frases prontas, repetidas à exaustão por tantas pessoas que não fazem ideia do que aquilo tudo significa; estou frustrada; estou assustada e decepcionada ao perceber o quanto as pessoas são falsas e dissimuladas, o quanto de preconceito existe dentro do ser humano – passaram a vida toda se policiando, fingindo serem politicamente corretas, arrotando santidade, mas bastou um desequilibrado sair por aí falando uma série de impropérios para essa gente resolver mostrar quem, de fato, são. Mas o meu saco cheio, assim como o de tantas outras pessoas sãs, com bom senso, está longe de terminar. Está faltando ação para combater esses absurdos – não adianta ficar nessa infantilidade de apenas debochar das bobagens desse governo com memes nas redes sociais (embora sejam muitas vezes engraçadas e uma forma de “desopilar o fígado”); estamos precisando agir! Mas enquanto nada acontece – e eu entendo que a frustração tenha se tornado maior do que a vontade de se mexer e “quebrar tudo” -, segue o baile, segue o show de horrores.