Aos meus familiares, amigos e conhecidos eleitores do Bolsonaro

Quando foi que vocês se tornaram fascistas?
O que é que vocês precisam proteger derramando o sangue do seu irmão?
O que você sente ao imaginar a fala do seu candidato sendo realizada?
O que você sente ao apoiar o extermínio de indígenas, negros e homoafetivos?
Você reza para que seu familiar/amigo/vizinho gay morra em um acidente?
Você empresta seu cinto para que seu vizinho corrija seu filho afeminado com uma surra até a morte?
Você apoia o policial que confunde um guarda-chuva com arma e mata o trabalhador que está apenas esperando os filhos descerem do ônibus?
Qual é o seu papel nessa barbárie toda?
Quem é você na homenagem ao Carlos Alberto Brilhante Ustra?
O que desencapa o fio e dá o choque?
O que sufoca o torturado com um saco na cabeça?
O que leva as crianças pela mão pra assistirem a mãe sendo torturada. Ou o que alimenta os ratos que o torturador colocará nas genitais de mulheres? O que você sente ao imaginar isso? De que ângulo você mais gosta de assistir isso?
Quem é você no futuro educacional das crianças?
O que ensina elas a fazerem sinal de arma com as mãos ?
O que vota pelo congelamento dos investimentos na educação?
O que as mulheres representam pra você?
E você mulher eleitora desse candidato o que você é?
Uma fraquejada?
Mão de obra barata?
Uma vagabunda incompetente?
Uma fábrica de criar desajustados?
O que te faz se conectar com um ser humano que quer o seu extermínio? Que pulsão de morte é essa?
O que te faz se sentir um ser superior e apoiar o extermínio das minorias? (nas quais você certamente está inserido)
Que parte de você se conecta com tanta violência, desumanidade e ódio?
Você vai dormir tranquilo dando o cargo de maior poder do seu país a um desajustado, incapacitado e violento que o que mais deseja é derramar sangue?
Eu pergunto a você meu familiar, amigo e conhecido eleitor desse sujeito: aonde foi que você perdeu a humanidade?

Crédito: Polly Valéria

Vi este texto no Facebook de uma amiga e achei os questionamentos bastante pertinentes, pois vivemos um momento em que as pessoas – muitas delas boas, de boa índole e bom coração – estão se sentindo confusas, perdidas em meio a tantas informações equivocadas, fake news, agressividade gratuita, respostas (imbecis) padronizadas e afins. E essa confusão que estão vivenciando – criada por alguns candidatos (quiçá todos) – tem apenas a função de nos levar a tomar decisões impulsivas, impensadas, mas que certamente terão graves consequências num futuro não muito distante.

Não indico esse ou aquele candidato, porque essa decisão é pessoal: entre Ciro, Marina, Meirelles, Alckmin, Haddad… existem os pormenores ideológicos e de propostas que você precisa avaliar por si só – o que verdadeiramente soa positivo a você? O que você realmente precisa? E, sim, se preocupe com isso, pois falta apenas uma semana. Gaste um tempo pesquisando e escolhendo com calma qual desses candidatos pode representar melhor (ou de modo menos prejudicial…) o nosso Brasil, já bastante machucado. Temos muitas opções além do #elenao – esse é o único que, de fato, eu me posiciono de maneira enfaticamente contrária por uma série de questões já expostas aqui no meu perfil.

Entenda que se você não quer eleger o PT novamente (e eu também não tenho esse desejo, te garanto), é possível lutar por isso sem votar naquele senhor tresloucado. Ah, o seu problema é a questão da corrupção? Então, dê uma pesquisada (mas faça isso de mente aberta, sem aquela baboseira de “é fake news“, “tá fora do contexto” e o diabo a quatro, porque, sendo bem sincera, muita gente está passando vergonha e deixando atestado de burrice com esses comentários padrões, ao negar o óbvio) e verá que o #elenao não é a solução (a única solução, a meu ver, seria nenhum desses que estão aí serem eleitos, mas sabemos que não é possível impugnar todas as candidaturas…).

Nenhum deles têm as mãos completamente limpas.
Nenhum deles têm a moral completamente ilibada.
Nenhum deles é santo.
Todos, em algum momento, deixaram rastro de algo que não deveria ter sido feito.

Mas apenas um, somente um, incentiva o retrocesso da democracia, a violência, o armamento (pouco se importando com as condições psicológicas do portador da arma; basta ter dinheiro para comprar uma), o preconceito, o ódio, a tortura (aliás, celebra torturadores! Nojo!), a morte em grande escala, a desigualdade de gêneros/raças/classes sociais, a falta de cultura e educação…

Não se deixe levar pela raiva ou pela desesperança em relação ao atual cenário político e econômico brasileiro. Pense com cuidado antes de agir.

#elenao #elenunca

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Carta de uma mulher a Jair Bolsonaro

De uma mulher, de tantas mulheres

Caro candidato, essa é uma carta difícil de escrever. Não por medo, nem por me faltarem as palavras. Mas por não saber como devo abordar alguém com um comportamento como o seu. Na minha família fomos educados- homens e mulheres- para dizer as coisas de forma inteligente, sem truculência e sem agressividade barata, mas não sei se o senhor sabe ouvir algo dito nesse tom.

De toda forma, me nego- como me neguei a vida inteira- a jogar fora a boa educação que tive para me ver equiparada a pessoas que não tiveram a mesma sorte na construção do seu raciocínio e da sua índole, esperando que o senhor faça um esforço para entender que nem toda força deriva do grito.

Sou uma mulher. Uma típica mulher do século XXI, dessas que trabalha muito, que se esforça ao máximo, que tem consciência dos seus direitos e da sua voz. Sou uma mulher como todas as outras, que quer apenas se ver segura, respeitada e usufruindo de uma vida justa. Não me parece um grande luxo. Mas sei bem que o senhor não pensa dessa forma.

Sei que a noção de respeito é algo muito distorcido para o senhor. Na verdade, acho que o senhor não faz a menor ideia do que é respeito. Lamento, porque isso só pode ser fruto de graves falhas da educação de base. Quando a gente cresce sendo respeitado e vendo respeito dentro de casa, a gente não tem dúvida nenhuma acerca desse verbete. Lamento sinceramente que sua história não tenha sido assim.

Não vou listar aqui as inúmeras agressões que o senhor proferiu ao longo desses últimos anos. Agressões a mulheres, a negros, a judeus, a homossexuais, a indígenas, ao povo brasileiro como um todo. Me nego a propagar um discurso que eu poderia considerar inconsequente, infeliz ou antiquado, mas que a lei define como criminoso. Não se trata apenas de uma opinião equivocada, trata-se efetivamente de uma conduta criminosa. Talvez por isso que o senhor deseje armas com tanto fervor.

Me pergunto o que levou o senhor a ter essa vida toda guiada pelo ódio. Embora nós tenhamos consciência de que há uma série de temas que o senhor não domina, por exemplo dívida externa e taxa de juros, não temos dúvidas de que o senhor sabe muito bem que pena de morte e porte de armas não reduzem a violência em lugar nenhum. Vamos falar a verdade, vai. Suas propostas nunca visaram a redução da violência, não é mesmo? Trata-se mesmo de ódio, pura e simplesmente. E nós, mulheres, que buscamos segurança e igualdade, sabemos que armas e ódio são diametralmente opostos a esses objetivos.

Num documentário que eu imagino que o senhor não viu nem nunca vá ver, chamado Nanette, a protagonista diz que não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu. E me diga? Que mulher não é destruída quando ouve um candidato à presidência fazendo apologia à violência sexual contra a mulher? Que mulher não é destruída pela apologia à discriminação contra a mulher no trabalho? Que mulher não é destruída pela penalização da sua gravidez ou pela ingerência em seu nosso próprio corpo?

Mas eu vou te dizer, candidato, que nós, mulheres, para o seu azar, temos esse persistente hábito de nos reconstruirmos. Nos reconstruímos todos os dias de agressões como as suas. Você não é nenhuma novidade. E é com essa nossa força que nós, mulheres, não permitiremos que o senhor seja eleito, nem que seu discurso ganhe espaço, força ou suporte. Você nos despreza, mas seremos exatamente nós que te faremos permanecer tão pequeno quanto o senhor sempre foi. Pode escrever.

https://emais.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/carta-de-uma-mulher-a-jair-bolsonaro/

Trintessetei

Enfim, cheguei aos 37 anos – uma daquelas idades que ninguém perde tempo pensando a respeito, afinal, não tem o mesmo peso dos 18, 30, 40 anos. Trinta e sete só um número no meio do caminho entre uma data significativa e outra.

Mas o fato de estar me aproximando dos 40 trouxe um aspecto (psicológico) importante, ao menos para mim, que me fez ter maior clareza sobre as lutas que quero lutar, sobre o que vale a pena eu me dedicar (trabalho, amigos, família…), sobre quem eu quero perto de mim e, também, sobre a brevidade da vida.

Talvez seja a tão falada maturidade que, de fato, deu as caras por aqui (apesar de eu achar, há tempos, que era uma pessoa madura), talvez seja a percepção de que o tempo realmente está voando e que não tenho mais desculpas para ficar desperdiçando esse tempo com coisas inúteis ou pouco frutíferas (existe uma música que diz: “só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder…”), talvez seja falta de paciência para aguentar pessoas negativas e/ou enfrentar situações que me desgastam e não acrescentam nada. Ou pode ser um misto de tudo isso.

O fato é que os 37 mal chegaram e me trouxeram essa percepção clara e positiva do rumo que devo dar à minha vida. Não sei ao certo qual caminho devo trilhar (não acredito que haja apenas um caminho a ser seguido), mas sei onde quero chegar e o que quero para minha vida – e assumo que parte (felizmente pequena) do que tenho hoje ao meu redor não me serve mais, não por ser ruim, mas por não fazer parte dos meus “novos” planos de vida. Sabendo o que é bom ou não para minha vida fica fácil colocar a “sabedoria” que essa nova fase está me proporcionando.

Tenho grandes planos para mim: tenho sonhos, tenho desejos, tenho força de vontade para correr atrás de cada um deles. Então, por que me manter ligada a “bolas de ferro” que atrasam meu crescimento? Por que não deixar para trás aqueles e/ou aquilo que não me fazem bem? Acredito que maturidade seja isso: saber escolher as minhas lutas e saber abrir mão/deixar de lado o que não serve mais – sem crises, sem inimizades, sem sofrimento; só deixar ir…

Espero que este novo ciclo da minha vida seja de evolução pessoal e profissional; de leveza na alma; de prosperidade espiritual e material; de libertação das amarras, de velhas ideias e de sentimentos ruins; de afastamento de tudo o que não me faz bem, de tudo o que suga minhas energias; de cair, mas levantar em seguida, sem amarguras ou arrependimentos, e de crescimento; de sonhar e realizar; de viver plenamente; de ser feliz e conquistar o mundo.

O erro é seu, não meu!

Quem disse que ouvir crítica é fácil?
Quem disse que dar feedbacks é moleza?

Se ambos fossem fáceis – de dar e receber – talvez o mundo fosse um lugar um pouco melhor, uma vez que um poderia falar o que pensa (com moderação e gentileza, claro) e o outro poderia ouvir e analisar (de coração e mente abertos), para, juntos, chegarem a uma conclusão positiva e construtiva.

Mas o ser humano, esse bichinho egoísta e muitas vezes irracional, não consegue encontrar o meio-termo entre o que foi falado e o que foi ouvido (aquela história de “sou responsável pelo que falo, mas não pelo que você entende” é muito verdadeira…) e cria, por incapacidade de interpretação de texto e, acima de tudo, por soberba e arrogância, uma enorme tempestade em copo d’água.

O que o outro falou sobre mim, ou sobre você, está realmente errado?
Não faz mesmo nenhum sentido?
Será que demos motivo, ainda que de modo inconsciente, para falarem sobre nós?
Não vale – mesmo que não concordemos num primeiro momento – uma reflexão a respeito?
Somos tão superiores e corretos a ponto de não precisarmos melhorar?

Ao mesmo tempo em que juramos santidade e inocência, não pensamos duas vezes antes de, com o dedo em riste, bradar a quem queira ouvir, com ou sem razão, que o outro errou. É muito fácil dizermos “você errou”, “você fez isso”, “você fez aquilo”, mas em momento algum paramos para pensar em nossos atos e suas consequências. Tomamo-nos como indefectíveis e o resto do mundo como problemáticos.

Um autoexame de consciência – honesto, realista, com o intuito real de ser alguém melhor (de verdade, não apenas dentro da nossa cabecinha) – cairia muito bem de vez em quando…

Autocura

A escrita sempre foi minha forma favorita de fuga da realidade. Escrever representa muito mais do que colocar letras no papel, mais do que criar histórias; escrever é exorcizar traumas, angústias, frustrações, infortúnios. É terapia, um jeito para não enlouquecer. Escrever é, desde sempre, minha maneira de sobreviver em meio ao caos cotidiano – muitas vezes causado por terceiros.

Mas, às vezes, o caos vem com tanta força, arrastando para dentro de si tudo o que encontra no caminho – sonhos, expectativas, desejos, família, amigos, trabalho… Quando, enfim, me dou conta do redemoinho que passou sobre mim, muitas vezes, é tarde. Sobrou pouca coisa (às vezes, ou nada) no lugar.

Nem sempre o caos é ruim, devo ressaltar. É assustador e incômodo, afinal, me tira da zona de conforto, do meu mundinho, e me obriga a buscar novas formas de sobreviver nesse novo cenário. Mas, mesmo que me leve em direção à minha própria evolução, é exaustivo ter de passar por tudo isso – e por tantas e tantas vezes. Exaustivo o bastante para me fazer não ter forças sequer para escrever. A cabeça e o coração ficam tão confusos, doloridos, sem rumo, que chega a ser difícil organizar pensamentos e emoções para colocá-los no papel, num processo – talvez infantil, talvez não – de autocura.

Natal, infância e maldade

Dia 24 de dezembro. O ano era 1988. A família estava reunida na casa da minha avó para celebrar o Natal. Eu tinha 7 anos e usava um conjunto de saia e top azul e branco e tinha ganhado uma Xuxinha de presente. Meu primo, um ano mais novo – e até então filho único – tinha acabado de ganhar um carrinho vermelho, conversível, de fricção, e minha boneca, com a maior cara de pau do mundo, se apossou do carro e ficou boa parte da noite andando para lá e para cá.

Ao lado da casa da minha avó havia um terreno vazio, cujo muro alto estava começando a ser coberto pelo mato, que já se curvava sobre ele. Não sei dizer em que momento meu pai juntou um maço daquele mato, mas lembro de tê-lo visto entrar na sala com as folhas sob o braço. Empolgada, corri até ele para perguntar para que ele havia recolhido aquele mato e ele, com um sorriso no rosto, me disse que era para o burrinho do Papai Noel. Eu tinha apenas 7 anos, então, releve o fato de eu não ter questionado se não seria rena e não burro. Meu pai colocou aquelas folhas atrás do sofá, próximas à porta de entrada da sala. À meia-noite, quando o bom velhinho parasse na nossa casa para entregar os brinquedos para as crianças, o bichinho faria uma pausa em sua viagem e “jantaria” a salada que meu pai preparou. Aquele era um ótimo plano!

Faltava pouco para a meia-noite, quando todos os adultos nos disseram para aguardamos o Papai Noel no quarto da minha avó – segundo eles, o sr. Noel era tímido… Que fofo. Fomos correndo para lá e, de repente, ouvimos um tilintar distante. O sino do trenó do Papai Noel, óbvio! Corri para a sala o mais rápido que pude na tentativa de ver o burrinho, mas não deu tempo. Vi meu pai voltando da rua, dizendo que tentou vê-lo, mas também não conseguiu. Sorrimos, felizes, ao ver que o bichinho pelo menos teve tempo de se alimentar antes de seguir viagem. Chamei minha mãe e contei o que aconteceu e lembro que ela ficou bastante satisfeita ao ver que o bichinho havia jantado direitinho.

Ao voltar para dentro de casa, meu primo mais velho veio correndo na minha direção e de nosso primo mais novo, rindo, debochado, dizendo que éramos dois tontos, que estávamos sendo enganados pelos adultos, que tudo aquilo não passava de bobagem e que Papai Noel, burrinho e sino de trenó eram coisas criadas por nossos pais. Com um sorriso cruel no rosto, de quem havia acabado de matar uma das partes mais bonitas da vida de uma criança, ele levantou uma colher de café e o arame que prendia a rolha na garrafa de champanhe e bateu um no outro, reproduzindo o som do sino.

Foi um momento triste. Foi ali, aos 7 anos, que o dia de Natal começou a perder a graça para mim, mas, mais do que isso, foi naquele dia que eu percebi que existiam pessoas maldosas, ruins, que agiam assim gratuitamente e, pior, que essas pessoas podiam estar presentes em todos os lugares, inclusive na nossa família.

Ciclos…

A vida é feita de ciclos. Começos, meios e fins. Recomeços, meios e outros fins. Etapas que podem ser curtas, médias ou longas – não importa. O fato é que, uma hora ou outra, esses ciclos se encerraram. Alguns abrem espaço para novos ciclos, novas experiências, novas oportunidades; outros simplesmente findam, simples assim. C’est fini.

Sempre tive grande dificuldade para lidar com essas rupturas, com as mudanças impostas pela vida, com seus altos e baixos e constantes variações de humor. Já enfrentei muitos finais de ciclos, mas, por vezes, eles ocorreram contra a minha vontade, sem que eu tivesse agido para isso; apenas reagi ao que estava acontecendo, em uma tentativa de sobreviver ao caos que alguns desses fins de ciclos provocaram.

Agora, cada vez mais próxima de iniciar um novo ciclo da minha vida – meu trigésimo sexto… – talvez eu esteja me sentindo mais à vontade, mais madura, mais confiante em dar um passo em direção ao término de um ciclo – em especial – que, há dez anos, completados este ano, tem se estendido para além do necessário. Foi uma fase importante, sem dúvida, em que aprendi muita coisa e que, também, me auxiliou em períodos turbulentos, mas que, agora, está na hora de ser concluído e deixado para trás. Não há mais nada a me acrescentar. Então, melhor encerrar por aqui e preservar as boas memórias, certo?

Seneca