Um dia atípico

É 24 de dezembro, véspera de Natal, e estou numa colônia de férias dos securitários com meus pais. O dia começou frio e chuvoso, muito chuvoso. Um dia feio, que nos obriga a ficar trancados dentro da colônia – no nosso quarto ou na sala de TV – ou, então, sair para dar umas voltinhas de carros. Mas nada de pé na areia, nada de mar.

Para deixar o dia ainda mais atípico, a notícia de uma tsunami. Confesso que eu nunca tinha ouvido falar nisso; pelo menos, não que eu me lembre.

Aconteceu uma dessas para os lados da Indonésia, Ilha de Sumatra, se não me engano. Minha mãe ouviu essa informação em uma rádio da Baixada Santista e nos contou. Confesso que ainda não compreendi a magnitude disso tudo. Tsunami? Onda gigante? What the hell?

Conforme o dia vai passando, começo a compreender o que está, de fato, acontecendo. Tsunamis são ondas gigantes. Ondas gigantes que devastaram a região. Ondas gigantes que invadiram casas e hotéis. Ondas gigantes que trouxeram caos e desespero. Ondas gigantes que dizimaram vidas. Não se sabe quantas vidas, mas certamente não foram poucas.

A idéia de uma onda gigante destruir uma cidade me parece surreal. Ondas, mar… coisas que eu tanto amo. Matando e destruindo tudo o que encontram pela frente? Como pode?

Diante da TV é que eu, finalmente, compreendo tudo o que está acontecendo. Cidades inundadas, destruição, mortes, medo, doenças estão por vir… Nada daquilo parece fazer sentido, mas faz. Placas tectônicas se moveram no fundo do oceano e o atrito acabou gerando as tais ondas.

Parece coisa de filme, mas acho que nem Spielberg seria capaz de imaginar tantos detalhes (trágicos) ao mesmo tempo. Como eu disse, é surreal. E com o decorrer das horas, dos dias, com as novas informações que vão surgindo, tudo parece mais absurdo e chocante ainda.

No dia 25, dia de Natal, milhares de pessoas na região da colônia onde eu estava foram para a orla comemorar o Natal, com champanhe, mar e fogos. Eu e meus pais também fomos. Mas foi estranho – para mim, pelo menos. Não consegui me sentir tão à vontade com o mar. Ele me pareceu ser outro, não o mar que eu tanto adoro.

Olhando para ele, no escuro, vendo a lua e a luz de alguns poucos navios, ele me pareceu sombrio. Eu o amo, mas não consegui pensar nisso na hora. Ali, dentro dele, em algum canto, inegavelmente haviam pessoas que não tiveram a chance de comemorar o Natal como eu. Meio bizarro pensar assim, mas pensei.

Até agora, confesso, ainda não sei o que pensar a respeito de tudo isso. Me incomoda pensar nisso. Mas, certamente, esse fato será falado, pensado, reproduzido, comentado por muito tempo. Até que tudo esteja em ordem na região, até que as vítimas sejam contabilizadas, até que a vida volte relativamente ao normal.

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