Hipocrisia

Há tempos venho pensando a respeito da hipocrisia e incoerência que assolam nossa sociedade. E, quanto mais eu penso, mais eu tenho certeza de que merecemos a vida que levamos.

Vivemos reclamando da baixa qualidade da programação da TV, mas, em vez de desligarmos a televisão e lermos um bom livro ou sairmos para caminhar ao ar livre, perdemos nosso tempo (e damos pontos no Ibope) com essas mesmas emissoras que constantemente criticamos.

Reclamamos da baixa qualidade do ensino prestados pelas escolas públicas e privadas, mas somos os mesmos alunos (e pais) que desrespeitam os professores durante as aulas e criticam o excesso de livros e matérias dadas diariamente. Ler fora do horário de aulas chega a ser considerado um sacrilégio!

Gritamos aos quatro cantos que não temos segurança e que a violência está dominando nossas cidades, mas somos as mesmas pessoas que, frente a uma ofensa um pouco mais “pesada”, partem para a agressão no intuito de defender a honra. Dialogar para encontrar uma solução pacífica é coisa para fracos.

Ficamos indignados com a falta de assistência que os moradores de rua recebem dos governos e de novas organizações não-governamentais para ajudar a resolver tal problema, mas somos os mesmos que fecham rapidamente o vidro do carro quando uma criança se aproxima; que desviam, com cara de nojo e ar de superioridade, de uma mulher idosa ou de um deficiente que está sentado em uma calçada pedindo ajuda; que negam um prato de comida a um pedinte; e que se recusam a atuar como voluntários em algum trabalho social.

Resmugamos que nossa cidade e nossos rios não são limpos e dizemos, em tom indignado, que a prefeitura deveria fazer alguma coisa a respeito, mas somos as mesmas pessoas que tomam um refrigerante e comem um salgadinho e jogam as embalagens nas ruas, que fumam e jogam bitucas de cigarro no chão, e que descartam materiais passíveis de serem reciclados, como garrafas pet e pneus, em locais inadequados.

Vivemos dizendo que nossos governantes são desonestos e que deveriam ser tirados do cargo que ocupam, mas somos as mesmas pessoas que, por falta de bom senso e por preguiça de pesquisar sobre o passado dos candidatos, votam e reelegem os mesmos políticos para os mesmos cargos, para fazerem novamente o que não queremos que façam. E, assim, damos continuidade ao círculo vicioso em que nós nos colocamos. Mas, em vez de lutar por nossos direitos de cidadãos e tentar moralizar nossos governos municipais, estaduais e federal, é mais interessante gastarmos nosso tempo e queimarmos nossos neurônios nos preocupando com as eleições no Irã, por exemplo.

Pregamos a quem quiser ouvir (e a quem não quiser também) a importância e necessidade de se preservar o meio ambiente, mas, em nossas casas, não abrimos mão – de jeito nenhum! – de um gostoso e longo banho de água bem quente, não nos damos ao trabalho de separar o lixo que geramos, não nos preocupamos com o disperdício de alimentos nem com os produtos que compramos. O importante é mostrar aos demais que somos engajados (mesmo que, no fundo, sejamos apenas falsos profetas, que pregam mas não seguem os próprios ensinamentos).

E depois disso tudo, de sabotar aos nossos próprios interesses, ainda temos a cara de pau de reclamar da vida…

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