O povo quer sangue

Desde que se tornou famosa, em meados de 2006, Amy Winehouse passou a ser literalmente caçada por fãs e paparazzi. Enquanto uns poucos queriam apenas ter algum tipo de contato com seu ídolo, a maioria ansiava por escândalos: imagens que demonstrassem sua decadência física e vocal; situações que comprovassem a fama de problemática e sua já conhecida dependência química; vídeos que apresentassem seus fiascos em shows e festivais; fotos de momentos íntimos… Afinal, sexo, drogas e decadência vendem.

Alguém se lembra de uma matéria – qualquer uma – comentando apenas sobre sua voz, ou sobre seu figuro estilo pin-up (que era a coisa que eu mais gostava nela), ou qualquer aspecto que não fosse relacionado a desgraça? Sei que a maior parte da fama de Amy foi construída a partir de sua vida conturbada, mas será que não existia nada além disso? Não existia um ser humano ali não?

O que acontecia com Amy foi praticamente igual ao que aconteceu com Michael Jackson. Ele teve uma vida praticamente inteira dedicada à música; criou alguns dos maiores hits de todos os tempos; deu início a uma nova fase da indústria musical e da televisão, com o aperfeiçoamento dos vídeo-clips, que passaram a ser mini-filmes, com histórias complexas, diversos efeitos especiais e orçamentos milionários; mas, no final das contas, nada disso importou. Interessava falar apenas sobre suas plásticas, sua pele, como seus filhos foram concebidos e se ele era, de fato, um pedófilo (coisa que, após sua morte, foi desmentida pela família de quem o acusou injustamente). Enfim, toda a sua obra foi basicamente ignorada em troca de escândalos e recordes de vendas.

“Era uma questão de tempo até ela morrer”, disse Janis Winehouse a um jornal inglês. Amy era uma pessoa marcada para morrer, um animal de sacrifício (quer coisa mais perversa que o site que eu mencionei aqui?). Assim como foi Michael Jackson e como é Lindsay Lohan (outra que adora se meter em confusão, com direito a drogas e álcool), Kate Moss, Pete Doherty e sabe-se lá mais quantos outros famosos.

De onde veio essa perversidade dos veículos de comunicação que cobrem o mundo das celebridades? Foram esses meios que tornaram seu público maldoso e sanguinário ou foram os leitores que transformaram a indústria do entretenimento? Quem acabou com a simples curiosidade? O que temos hoje pode ser comparado ao que existia na época do extinto Notícias Populares que, como diziam alguns jornalistas, bastava espremer para sair sangue.

Fico triste ao ver que ela fez a festa de seus algozes ao agir como todos esperavas e se juntou precocemente a tantos outros que se renderam às “perdições”. Pior ainda é saber que, mesmo morta, Amy Winehouse continuará a ser caçada por seu milhares de “urubus”, que vasculharão cada cantinho de sua memória em busca de uma “baixariazinha póstuma”.

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