Nós, as culpadas

Assisti a uma palestra hoje, no Espaço Mulher (Expo Money), que comentava sobre a vocação que nós, mulheres, temos em nos sentirmos culpadas. Até então, eu achava que isso era uma neura minha, que era uma mania que eu tinha de me cobrar demais, de ser tão perfeccionista, mas percebi que não sou a única nesse barco.

Muitas das mulheres que ali estavam – empresárias, investidoras, analistas de mercado de capital – pareciam ser tão seguras de si, tão donas do próprio nariz, mas, depois da apresentação, na hora do bate-papo com as palestrantes, mostraram-se – sem nenhum pudor ou medo de julgamento – como seres humanos frágeis e cheias de culpas – com e sem razão.

Mães sentem-se culpadas por trabalhar fora, deixar os filhos em casa e não passar tanto tempo com as crianças quanto “deveriam”. Esposas culpam-se por não “se dedicar” tanto aos maridos quanto se espera de uma “boa esposa”. Filhas culpam-se por não fazer tudo o que podem pelos pais ou por não conseguirem – por qualquer motivo – estar tão presente na vida deles quanto eles gostariam. Amigas se culpam por não poder usufruir de todos os momentos ao lado uma das outras. Profissionais culpam-se por precisar trabalhar muito. Culpa, culpa, culpa…

A mulher de hoje carrega essa angústia permanente porque quer ser boa mãe, boa dona de casa, boa esposa, boa amante, muito competente no trabalho, tem que estudar e se atualizar. E ainda precisa ser magra, fazer ginástica e cuidar da alimentação”. (Magdalena Ramos, psicóloga)

Segundo uma das palestrantes, Cecília Russo Troiano, muitas vezes essa culpa é algo que só existe em nossa cabeça. Enquanto estamos nos martirizando, pensando “o que X vai pensar de mim se eu fizer isso?”, “Y deve estar chateado comigo por eu não ter feito sabe-se lá o quê”, na maioria das vezes a outra pessoa não está dando a mínima para o que nós estamos fazendo/pensando.

A outra palestrante, Valéria Meirelles, brincou questionando se alguma vez nós vimos algum homem se torturando por conta de culpa. Eu, particularmente, não me lembro de ver um homem se sentindo culpado por sair para uma balada enquanto a namorada estava trabalhando até mais tarde; de ver um marido se torturando por ter ido jogar futebol no domingo enquanto as crianças estavam dentro de casa, sem nada para fazer…

Engraçado notar essa diferença de comportamento – negativa, no nosso caso. Nas duas ou três gerações passadas, milhões de mulheres lutaram para conquistar seu espaço no mercado de trabalho, para terem direito ao voto, para poderem ser mais do que apenas dona de casa, e agora nossa geração, que pode usufruir sem o menor constrangimento ou restrição as conquistas obtidas, sente-se culpada por tudo. De que adiantou tanta luta se nós convivemos diariamente com esse sentimento? Não faz sentido.

Uma das participantes do evento comentou que essa sensação é gerada – ainda… – pela maneira como nós somos criadas. Meninos/homens podem fazer o que bem entenderem – subir em árvore, falar palavrão, brigar, discutir e jogar futebol, trabalhar em qualquer área, dirigir carrões, chegar a hora que bem quiserem em casa, ficar com mais de uma pessoa numa mesma balada… –, mas se meninas/mulheres agem da mesma maneira, a aceitação não é a mesma. “Isso é coisa de homem”, “homem pode”, “ele é homem e sabe o que faz”. E nós não podemos por quê? Quem disse que nós não sabemos o que estamos fazendo?

Cecília lembrou de uma propaganda que apresenta duas crianças – um menino e uma menina – separados por uma rede de tênis. Acima do menino, o texto dizia “futuro CEO…”, e acima da menina, “futura analista…”. Nada contra ser analista – destacou Cecília -, mas porquê ELA não pode ser CEO e ele, analista? Por quê o homem sempre tem que ser mais que a mulher? Absurdo, não é?

Passamos nossa vida lutando por espaço, direitos e liberdades e, ao menos tempo, lidando com culpas, cobranças, falta de tempo, patrulhamentos sociais, múltiplas tarefas. Estamos muito mais ocupadas e bem preparadas para enfrentarmos uma vida multitarefas, mas será que somos felizes? Felizes de verdade?

Vivemos um momento de transição: conquistamos muito e sabemos o que não queremos mais, mas ainda estamos tentando saber o que, de fato, desejamos para nossas vidas. Só cuidar da casa não nos satisfaz, mas também não estamos dispostas a abrir mão da família. Hoje, temos um mundo de incontáveis possibilidades à nossa frente e, com ele, vêm as incertezas, as cobranças, os “e se”, as necessidades de escolhas (que englobam abrir mão de algumas outras coisas), a sensação de instabilidade e, sim, a culpa.

Mas, acredito, isso não precisa significar infelicidade. Temos em nossas mãos muitas oportunidades, novos horizontes e perspectivas. Só precisamos encontrar – cada mulher à sua maneira e dentro de suas possibilidades – a melhor forma de lidar com essa nossa nova multiplicidade de papéis a que estamos sujeitas, dentro de casa e fora dela, sem encarar cada passo dado como motivo de culpa e aflição. E, se for o caso, abrir mão, ainda que temporariamente, de uma ou outra atividade se isso significar conquistarmos algo superior: nossa felicidade e bem-estar.

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