Casos inacabados

Ivan Martins, editor executivo da Revista Época, é, atualmente, um dos escritores que mais gosto de ler. Seus textos falam de amor, sexo e relacionamentos, sempre com sensiblidade, sagacidade e muita honestidade. Gosto disso. Tem sido difícil ver por aí textos e escritores/jornalistas com essas qualidades.

Recentemente, Ivan escreveu sobre casos inacabados e o assunto me interessou bastante. Mais ainda o seguinte trecho:

(…) A rigor, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você, fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim. Um saco. | Se tudo isso parece muito sério, relaxe. Há outro tipo de caso inacabado que não dói. São aquelas pessoas de quem você vai gostar a vida toda, cuja simples visão é capaz de causar felicidade. Elas existem. Você não vai largar a mulher que ama para correr atrás de uma figura dessas, mas, cada vez que ela aparecer, vai causar em você uma insurgência incontrolável de ternura, de saudades, de carinho. O desejo, que já foi imenso, envelheceu num barril de carvalho e virou outra coisa, meio budista. Você olha, você lembra, você poderia querer – mas já não quer. Você fica feliz por ela, e esse sentimento é uma delícia. (…)

Já me vi presa a casos inacabados – quem nunca? Na adolescência, amei muito uma pessoa (foi meu primeiro amor…) e passei anos “acorrentada” à ideia de que ele era o homem certo para mim – mesmo que ele jamais tenha provado essa minha teoria. Hoje, mais madura, tenho consciência de que idealizei a história que gostaria de ter vivido com ele. E perdi meu tempo, gastei sonhos, desejos e esperanças, me frustrei. Um saco.

Já adulta, conheci duas pessoas – dois amigos – que, pelo excesso de proximidade, carinho e afinidade, me deixaram confusa quanto aos meus sentimentos. Por um breve período, cheguei a pensar que estivesse apaixonada por eles, mas, no final das contas, não era nada disso. Não seria capaz de largar nada em minha vida por eles, nem de pedir fizessem o mesmo por mim. Ambos, que hoje estão meio distantes por conta da correria do trabalho, são daquele tipo de caso inacabado que hoje me trazem alegria ao encontrá-los por aí. São pessoas que eu olho, lembro, poderia querer – mas já não quero. Fico feliz por ambos, e esse sentimento é uma delícia.

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