O que nos falta, cega pro que já se tem

Trabalhar na área social – em uma publicação focada em responsabilidade social/Terceiro Setor –, além de conviver com pessoas que durante muitos anos se dedicaram à realização de trabalho voluntário, me fez compreender que o mundo vai muito além dos muros de nossa casa, muito além das nossas fronteiras.

Quantas vezes nos pegamos reclamando por não termos um determinado modelo de celular, um carro maior, um cabelo mais liso ou mais loiro, ou uma casa com mais dormitórios; por não podermos comprar aquela roupa ou calçado da moda que vimos em uma revista; por não podermos ir ao show daquela banda que tanto gostamos, por não “suportarmos” um certo tipo de comida? Quantas vezes não fazemos pouco caso de tudo o que temos, na “certeza” de que o que nosso conhecido, vizinho, amigo, familiar tem é extremamente melhor que o nosso? Quem garante que a grama do vizinho é realmente mais verde?

Perdi as contas das vezes que reclamei e esbravejei por coisas banais, de quantas vezes vi pessoas conhecidas “dramatizando” por motivos bobos, como se fossem as pessoas que mais sofrem em todo o mundo, como se vivessem nas piores condições possíveis. Na minha própria família, vejo pessoas que têm tanto dinheiro, vivem com fartura e muito conforto, mas, ainda assim, querem possuir cada vez mais bens, mais dinheiro, mais, mais, mais…

Não é errado – de modo algum! – querer melhorar as condições de vida e conquistar bens e dinheiro; precisamos disso para viver nesse mundo. Mas é absurdo viver unicamente em função dessa ganância desmedida e esquecer que, do lado de fora de nossas casas, ali em frente, na rua ao lado, do outro lado da cidade, existem pessoas que não têm sequer um pedaço de pão para dar aos filhos, que, naquele dia, dormirão com fome; não têm um colchão decente para dormir e descansar para, no dia seguinte, voltar ao trabalho; não têm dinheiro suficiente para comprar o medicamento que ela ou algum outro familiar tanto carece ou uma roupa nova, para substituir aquela outra, já puída.

Diariamente somos surpreendidos pelas maravilhas da natureza – o “simples” fato de amanhecer e anoitecer já é uma dádiva divina (ou você consegue fazer melhor?) –, pelas constantes inovações tecnológicas e os benefícios que elas trazem às nossas vidas, por nossa própria vida. No entanto, nossa condição humana, falha e, muitas vezes, contraditoriamente, desumana, não nos permite enxergar o quão abençoados somos – mesmo diante de “tudo” o que ainda nos falta, mesmo frente aos inúmeros problemas e obstáculos que enfrentamos todos os dias.

Se perdêssemos menos tempo olhando para nossos próprios umbigos ou esbravejando pelo que não temos, “mas deveríamos ter”, e passássemos a agradecer – ao menos um pouco – o que temos (ou, pelo menos, aproveitar e respeitar mais o que é nosso), quando tantos mundo afora não têm sequer o necessário para sobreviver, talvez fôssemos pessoas mais felizes e completas, menos desumanas, e aptas a compreender as desigualdades desse mundo e batalhar para que elas sejam reduzidas.

Vai sempre ter alguém
Com mais dinheiro, mais respeito
Mais ou menos tudo o que se pode ter
Vai sempre sobrar, faltar
Alguma coisa somos imperfeitos
E o que falta cega pro que já se tem…

(Paralamas do Sucesso – Seja você)

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