Com Elvis na Paulista – ou Batendo palma pra louco dançar

Tem muita gente que leva a vida no vai-da-valsa, sem se preocupar com nada nem com ninguém. Vive como se a vida fosse a coisa mais banal e, por isso, opta por não esquentar a cabeça com nada. Por outro lado, existem aquelas pessoas que esquentam a cabeça com tudo, que vivem se autoincumbindo de resolver tudo, de salvar o mundo. Acredito que eu esteja no meio termo, me equilibrando entre um e outro, embora, em alguns momentos, tenha mais inclinação para o segundo grupo.

Hoje, por exemplo, eu estava totalmente inserida no grupo 2. Explico: trabalho na Avenida Paulista, uma das mais importantes regiões de São Paulo. Um local onde existe de tudo um pouco (e é essa diversidade que mais me faz amar esse lugar). Na porta de um shopping aqui na avenida, praticamente ao lado do meu escritório, diariamente tem um cover do Elvis. O cara passa horas e horas cantando  Suspicious Minds, Blue Suede Shoes e afins. Hoje, durante o horário de almoço, ele contou com a “participação especial” de dois moradores de rua que, a seu jeito, improvisavam diversas coreografias.

Elvis

(Crédito: Márcia Vilas Boas)

A situação, por si só, poderia ser divertida – havia música e pessoas dançando, sem se importar com os que estavam ao redor. No entanto, enquanto eu acompanhava o desempenho do cantor e seus dançarinos, caiu minha ficha para o seguinte fato: um cara tentando ganhar a vida, a seu modo, e dois moradores de rua, visivelmente com transtornos mentais, eram alvo de deboche. Calculo que houvesse cerca de 50 pessoas paradas ali perto. Algumas fotografavam ou filmavam os “doidos”, como comentou uma moça com seu namorado; outros os apontavam e riam; outros apenas balançavam a cabeça em tom de reprovação.

Fiquei pensando: “será que essas pessoas têm consciência da insensibilidade disso tudo?”. Não apenas por seus pensamentos, que de tão gritantes podiam ser ouvidos por quem estivesse ao lado, mas por todo o contexto que englobou aquela cena. Homens em seus ternos bem cortados e com seus Blackberries em mão, e mulheres bem vestidas, com seus iPhones, bolsas e sapatos caros, cujo valor total poderia suprir a necessidade de alimento desses “doidos” por um bom tempo, ficaram ali, parados, rindo, como se aquelas pessoas estivessem ali apenas para diverti-los, não se lembrando que aqueles três – em especial os moradores de rua – são, antes de serem seus bobos da corte particulares e não remunerados –, seres humanos. Eles estavam, literalmente, “batendo palmas pra louco dançar”.

Senti muita vergonha por esses homens e mulheres “felizes e superiores”, que dedicaram parte de seu tempo para rir da desgraça alheia, como se tudo aquilo – o desequilíbrio mental, a sujeira nos corpos, a falta de senso de autopreservação, a dancinha estilo “clube das mulheres” (com direito a nota falsa de real presa no elástico da bermuda de um deles) – em cima de uma caixa qualquer largada na avenida, fosse mera encenação, como se nada daquilo fosse real.

Fico constrangida, com muito vergonha mesmo, ao ver o rumo que o ser humano está seguindo. Parece que as pessoas perderam a noção de humanidade e a sensibilidade. Desde quando é divertido rir da miséria humana? Por que as pessoas não tentam, pelo menos um pouquinho, se colocar no lugar das outras para ver qual é a sensação? Para mim, é impossível ver coisas assim e achá-las engraçadas. A sensação é o oposto. Aqueles “doidos”, os “bobos da corte da Paulista” são, acima de tudo, seres humanos, gente como eu e você, de carne e sono, e merecem nosso respeito. Não dá para presenciar situação grotesca como essa sem me doer pelo próximo, independente de quem ele seja, e sem perder a fé no ser humano. Não dá…

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Um comentário sobre “Com Elvis na Paulista – ou Batendo palma pra louco dançar

  1. O ser humano tá virando lixo mesmo, né? Seja por suas atitudes ou pela falta delas. Como alguém pode rir da desgraça alheia? Consciência não pesa?

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