Esse tipo de gente

Pensando em como as pessoas podem ser doentes e maldosas por causa de preconceitos bobos.

Hoje, no café da manhã, dividi uma mesa com um casal – um moreno baixinho, menor que eu, de Irecê (BA), e seu namorado, um negro alto, de uma cidade de Moçambique (não guardei o nome). O primeiro era arquiteto e o segundo, professor de dança, e trabalham em Madri há alguns anos. Conheceram-se lá e, depois de quase dez anos juntos, resolveram, finalmente, conhecerem suas famílias. Em Moçambique, a apresentação foi um fiasco. O baixinho sequer foi recebido pelos familiares do namorado. Aqui, a coisa não foi muito melhor. Os pais choraram, o pai disse que não aceitava filho baitola, que aquele “nego” que tinha que morrer, e por aí vai. Se eu fiquei triste com tudo isso, imagino o que eles sentiram.

Depois desses perrengues, revolveram se dar uns dias de férias antes de voltarem para casa e foram para Recife curtir o carnaval, e depois vieram para Fortaleza. Comentaram que aqui no hotel não tiveram contato com ninguém depois que um pai proibiu que seus filhos – “um casal de crianças loiras”, como disseram – falassem com “esse tipo de gente”. O negro, gente boníssima, diga-se de passagem, disse, com seu sotaque carregado, que aquilo doeu tanto quanto a rejeição da família dele. “Que tipo de gente somos? Que mal hacemos a eles sendo como somos?”. Não sei, de verdade. Não sei.

Mudamos de assuntos, conversamos sobre nossos trabalhos, sobre a beleza dessa praia, sobre outras amenidades; terminamos nossos cafés e nos despedimos. Subi para o quarto e eles continuaram lá embaixo.

Na hora do almoço, passei pela recepção e os encontrei, fazendo o check out. Eles vieram me agradecer a gentileza de ceder parte da mesa para que eles se sentassem. “Agradecer o quê, gente?! Pelo amor de Deus!” Como amigos de longa data, ambos me deram um abraço, tiraram uma foto (que eu sinceramente espero receber uma cópia) e foram para o aeroporto. Estavam felizes em voltar para casa, onde seriam bem recebidos pelos amigos que lá ficaram, sem se preocupar com os preconceitos descabidos. Fiquei feliz e aliviada por eles. De volta às suas vidas normais.

Não é apenas o preconceito contra gays, negros, mulheres, nordestinos ou qualquer outro grupo que me

Não é apenas o preconceito contra gays, negros, mulheres, nordestinos ou qualquer outro grupo que me “mata”, mas o fato de ver pais ensinando seus filhos a serem tão medíocres e odiosos quanto eles.

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