Auxiliar sem importunar

Li na Folha de hoje uma matéria falando sobre pedir dinheiro nas ruas para ONGs e como as pessoas têm dificuldade em ajudar (por falta de conhecimento sobre a causa, por má vontade, por desconfiança).

Já saí às ruas e em supermercados pedindo/arrecadando alimento para uma ONG aqui de SP (com foco no Nordeste) e sei o quanto isso é difícil se colocar nessa posição de ‘pedinte’ (principalmente quando a pessoa que pede sempre teve tudo na vida), o quanto é duro levar um não na cara (por vezes seguido de uma desculpa esfarrapada ou de uma ofensa desnecessária), o quanto é irritante ouvir bobagens como “não vou ajudar, isso é obrigação do governo” ou “não gosto de tal povo, não vou ajudar, eles que trabalhem”. É doloroso passar por isso sem ter a chance de responder à altura, pelo menos uma vez, alguns comentários imbecis e infelizes. Mas, paciência! Naquele momento, minha função não é doutrinar ninguém e sim é ajudar quem está precisando, então, deixo o rio seguir seu curso, porque sei o quanto aquele trabalho é importante.

Agora, me colocando na posição de ‘pessoa abordada’ nas ruas por esses voluntários (e isso me acontece todo santo dia na Paulista – seja pela Abrinq, pelo Greenpeace, Médicos sem Fronteiras, Aldeias Infantis SOS e Unicef), fica difícil tirar a mão do bolso e colaborar. Primeiro, porque parece que esse tipo de abordagem virou ‘modinha’ entre as ONGs. Todo mundo resolveu colocar seu pessoal nas ruas (e sempre no mesmo local e no mesmo horário – variar pra quê, né?). Segundo, pela qualidade da abordagem.

Das vezes que fui abordada e dei a esses voluntários a oportunidade de falar sobre suas causas (afinal, não é sempre que temos tempo para parar ou, sendo bem sincera, paciência para parar), em TODAS as vezes saí frustrada da conversa. A abordagem é ruim, tanto no conteúdo quanto na forma; é exagerada no sentimentalismo; carregada de chantagem emocional (que é uma coisa que eu definitivamente não tolero) e de clichês que fazem qualquer causa – por mais nobre que seja – parecer uma fraude. Será que esse pessoal não percebe isso? Será que nunca falaram isso para eles?

Por mais que as pessoas conheçam, de um jeito ou de outro, a organização, fica muito difícil se sentir disposto a ajudar. Eles falam, falam, falam, mas não passam nenhuma segurança de que todo aquele trabalho realmente é sério; não apresentam nenhum material que fale sobre os trabalhos e projetos desenvolvidos (folheto, folder, qualquer coisa); não permitem que você pense a respeito (ou você doa agora ou você doa agora – simples assim); não dão garantias de que aquele dinheiro irá para a tal organização mesmo; não te estimulam a ser um doador de verdade, que doe com frequência; não incentivam a pessoa a se envolver nos projetos desenvolvidos – muitos pedem apenas a sua doação mensal e ‘enrolam’ quando você pergunta se pode ajudar de alguma outra maneira. Mas e se eu quiser conhecer o projeto mais a fundo? Se eu não quiser/puder doar meu dinheiro, mas quiser/puder doar meu tempo e meu trabalho? Por que não incentivam isso também?

Na matéria, os Médicos sem Fronteiras não conseguiram arrecadar nenhum real durante o período que o repórter estava atuando como voluntário. Outras entidades não foram muito melhores que isso também. Já pensaram em melhorar a abordagem e o conteúdo? Já pensaram, também, em parar de agir de modo irritante com as pessoas que passam? Não fiquem cercando as pessoas nas ruas (você não sabe o que se passa na vida e na cabeça dela, não sejam inconvenientes!), não toquem nas pessoas (muita gente odeia isso), não forcem a barra e não façam chantagens emocionais (as pessoas vivem tão pressionadas no dia a dia, por tantos motivos; elas não precisam nem querem sentir-se encurraladas e acuadas no momento de ajudar ninguém).

Não sou contrária ao trabalho deles – de jeito nenhum! –, mas existem modos e modos de se realizar. Forçar doações, incomodar em vez de abordar as pessoas, não passar segurança… nada disso vai ajudar a organização. Acho que está na hora repensar as ações e os planos.

À esquerda, captador do Greenpeace (crédito: Heitor Augusto). À esquerda, voluntário da Unicef  durante abordagem na rua (crédito: Márcio Padrão)
À esquerda, captador do Greenpeace (crédito: Heitor Augusto).
À direita, voluntário da Unicef durante abordagem na rua (crédito: Márcio Padrão)
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Um comentário sobre “Auxiliar sem importunar

  1. Acho isso muito inconveniente. Sempre os vejo na entrada/saída do metrô e não acho um bom lugar e sobretudo um bom momento para abordar as pessoas: estão com pressa, cansadas, estressadas, ninguém tem saco pra isso. Eu acho que doações são voluntárias, espontâneas. Não forçadas. No meu caso, eu não dôo mesmo: eu escolho doar para entidades que não têm dinheiro pra manter gente na rua pra fazer propaganda e não para as grandonas.

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