Uma tarde com Patch Adams

Americano; nerd; alto demais para a idade; vítima de bullying; filho de soldado (falecido quando ele ainda era criança); criado em bases militares e, após a morte do pai, em um país que pregava a liberdade e a igualdade, mas que não aceitava que brancos e negros frequentassem o mesmo lugar, e que hoje é o país número 1 em terroristas e assassinos (de acordo com suas palavras). Com essa simples introdução, Patch Adams tinha tudo para ser infeliz. E, segundo contou para uma plateia composta por mais de 500 pessoas na tarde desse sábado, 31 de maio, ele, por um bom tempo, foi realmente infeliz. Infeliz ao ponto de tentar suicídio três vezes na adolescência por não suportar a contraditoriedade, a diferença social, o preconceito e a hiprocrisia de sua nação. Quem diria que essa pessoa, com uma vidinha até então medíocre, se tornaria um exemplo de amor ao próximo, de respeito, de alegria?!

Passar a tarde com Patch Adams foi um presente. Daqueles bem grandes, que qualquer tentativa de explicação correria o risco de parecer simplista ou infantil e, por consequência, cairia na pieguice. Foi gostoso demais ver (e aprender – tomara que eu consiga colocar tudo em prática) a maneira como ele encara a vida, o mundo como um todo. Para ele, tudo nessa vida gira em torno de amor, justiça e paz. Ativista internacionalmente conhecido, ele assegurou que é essencial que vivamos para pregar a paz e a justiça por meio da prática do amor. Se é fácil? Claro que não. Ele sabe, eu sei, você sabe. Mas não é impossível. “O amor é uma inteligência, ensinada dia a dia.” Mas, antes de sairmos colocando essas ações em prática, ele pontuou que é essencial que aprendamos a nos respeitar, que tenhamos autoestima. Somente assim, cientes de nosso valor, teremos condições de mostrar aos outros que eles também têm valor, que eles são tão especiais quanto você, quanto qualquer pessoa. Nem mais, nem menos. Ao falar em autoestima, o médico ressaltou a questão da mulher, ainda subjugada. “Mulher tem que aprender a se respeitar, a se valorizar”, ele disse, completando que vivemos em um mundo muito perigoso para a mulher. “Em meus estudos, concluí que 85% dos homens são perigosos às mulheres”, afirmou, completando que muitas vezes sente-se envergonhado por ser homem. “Ser um homem que não é perigoso às mulheres é um bom começo.

Amor + Justiça + Paz

Outro ponto que Patch destacou foi a importância de agradecermos. Gratitude. Agradecer sempre, por tudo. Sermos gratos pela vida, pela natureza, por nossa família, pelo alimento que consumimos, pelos amigos – a “alma” de sua filosofia de vida. “Quem tem comida no prato e ao menos um amigo não tem o direito de reclamar da vida.” Segundo ele, quem tem um amigo de verdade não tem depressão, não tem tempo para o tédio, não tem solidão – problema que ele considera como o grande mal (“Depressão não é uma doença, é apenas um sintoma de um mal maior, a solidão.”)

Patch comentou ainda sobre suas experiências sociais – seja ligando para números de telefones aleatórios apenas para praticar a “arte” da conversa ou se relacionando com as pessoas dentro dos elevadores, por exemplo – e concluiu que, até que o provem o contrário, todos são seus amigos. “Todo mundo é a minha família”. Um sorriso, Patch garantiu, é capaz de abrir as portas do coração das pessoas e aproximá-las. Quem não se sente bem-vindo, acolhido, querido quando recebe um sorriso sincero, desinteressado? Mas por que temos tanta dificuldade em coisas simples como iniciar uma conversa com algum desconhecido, dar um sorriso (ou retribuir um sorriso) a quem cruza nosso caminho, cumprimentar quem entra ou já está no elevador? Por que dificultamos coisas que são simples e fazem parte do nosso dia a dia? “As pessoas gostam de ser tristes, gostam de sofrimento”, ele afirmou. Sair da cama pela manhã é um martírio, comer uma coisa que não se gosta muito é uma tortura, conviver com as pessoas é difícil – as pessoas parecem não gostar de pessoas, da vida ou de serem felizes. “Não faz sentido viver assim. É como ter fome, mas não querer comer o que se tem disponível por não gostar daquele alimento. É estúpido”. Em outras palavras, nos privamos da felicidade sendo que, para sermos felizes, basta termos a intenção. “É preciso ter intenção de ser feliz. I will be happy!”, ele explicou. Mas não adianta apenas ter essa intenção; é preciso ter atitudes (desempenho) que nos leve em direção à felicidade. Somente assim, querendo e executando é que obteremos as consequências desejadas.

Sem título

Sua relação com a “ideia” de Deus foi algo que me chamou bastante a atenção. Achei interessante sua colocação quando uma participante do encontro disse que aquele contato com ele era um “milagre de Deus”. Ele desconhece Deus como um ser acima de todos, intocável, invisível. Ele respeita quem O compreende assim, mas, a seu ver, o verdadeiro milagre de Deus é ter a possibilidade de abraçar alguém, de estar em contato com as pessoas, com a natureza, com os animais, os insetos (que ele adora); é poder interagir, é poder ser útil e ajudar quem precisa, é ser caridoso, justo, amoroso. Para Patch, Deus é muito mais do que um conceito subjetivo; é a amizade, a felicidade, a caridade; é poder amar e receber amor. Isso é lindo. Me pareceu mais complexo e mais concreto do que a ideia de um Deus distante. Creio em Deus e acredito que essa definição faça muito mais sentido do que a visão de algumas religiões de que Ele deve ser temido, por exemplo. Para ele, nós somos Deus. Nosso relacionamento, nossa felicidade, nosso amor pelos amigos/familiares/desconhecidos… tudo isso é Deus.

Ainda sobre esse tema, me identifiquei profundamente com um comentário que ele fez sobre religião. “Para os cristãos ou budistas, por exemplo, a vida é vista como sofrimento”, disse o médico. Muitas religiões mostram a vida como um rito de passagem rumo à vida plena e feliz, como um meio de purificação. Sofremos aqui na Terra para conseguirmos algo melhor no céu. Não foram exatamente essas as palavras que ele usou, mas a ideia geral é essa. E isso é algo que eu venho questionando há muito tempo. Me recuso a viver uma vida baseada no sofrimento. Não creio num Deus que nos dá a vida para vivermos na miséria, na dor, no desespero. Creio em um Deus bondoso, que quer nosso bem. Um Deus bastante diferente e melhor do que o que muitas religiões pregam. Não creio num Deus vingativo e temeroso; se Ele é pai, ele me quer bem, quer minha felicidade, quer estar ao meu lado. Não é isso?

Eu poderia ficar mais um bom tempo aqui comentando sobre a apresentação de hoje, de tão encantada que estou. Patch, hoje, foi uma injeção de ânimo para mim. Ânimo, estímulo para continuar fazendo o meu melhor, tanto em relação aos outros, quanto em relação à minha vida e à vida das pessoas que me rodeiam.

Obrigada, Patch.

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