Rotina

Diariamente, às 5h40, quando o mundo externo ao quarto ainda está escuro, seu celular toca uma musiquinha chata, que a desperta para um novo dia. Dia de trabalho. 

Sem pensar, apenas seguindo um ritual já gravado em seu subconsciente, ela se levanta, toma um banho e desce até a cozinha, onde toma uma pequena caneca de chá e come uma ou duas fatias de pão de forma. Menos de dez minutos para se alimentar. 

Sobe a escada apressada, escova os dentes, troca de roupa (separada na noite anterior, para ganhar tempo pela manhã), penteia os cabelos, passa um batom (quando se lembra ou quando dá tempo), calça os sapatos, pega a bolsa e a mochila com o laptop, e segue seu caminho até o metrô. 

Às 6h30 ela já está na plataforma, que começa a ficar cheia, mas ainda tolerável. O metrô para, ela entra no vagão, pega o celular e os fones de ouvido e coloca uma música aleatória para tocar – geralmente rock. Os olhos quase vidrados, inexpressivos, observam a paisagem do lado de fora, que passa apressada, no ritmo acelerado do metrô, que corta a cidade, mas ela não registra o que vê; seus pensamentos estão perdidos em mundos paralelos, em sonhos, em planos que não se realizarão. 

Uma hora depois, ela sobe quatro lances de escada rolante, normalmente andando para ganhar tempo, e sai da estação de metrô há poucos metros da entrada do prédio onde trabalha. Sobe outros dois lances de escada no prédio, caminha mais alguns poucos metros e chega a sua estação de trabalho, que durante as próximas dez horas serão sua casa. Trabalha, trabalha, trabalha. 

Fim de expediente, dez horas depois de sua chegada. Ela caminha alguns metros, desce dois lances de escada, anda mais um pouco e desce outros quatro lances. Pega o metrô no sentido oposto ao que vai, para conseguir se sentar enquanto ele faz um bate-volta na última estação da linha. Sentada, pega seu celular e fones e liga uma música qualquer. Desce na estação que faz interligação com a linha que precisa pegar, novamente pega o metrô no sentido oposto e anda quatro estações, até chegar a estação final, na qual reembarca no metrô para, enfim, seguir para casa. Desce na estação mais próxima, caminha até o terminal de ônibus e embarca naquele que a deixará na rua de casa. 

Treze horas depois de sair, ela finalmente está de volta. Toma um banho, janta e vai para o computador terminar alguns trabalhos extras. Dorme às 23h30, meia-noite. Pouco antes de dormir, tenta pensar no dia que passou, mas se recorda de pouca coisa. Seu dia foi vivido no piloto automático. Sabe onde esteve e como chegou lá, mas não faz ideia do que aconteceu no trajeto. Apenas mais um dia de rotina, sem grandes emoções. 

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Dois pesos, duas medidas

Não é segredo que as pessoas são tendenciosas na maior parte do tempo e que, muitas vezes, as regras do jogo são validadas de acordo com o interesse desse ou daquele. Entendo que isso seja parte da natureza humana, do nosso “instinto de sobrevivência”.

Ainda assim, incontáveis vezes, me pego surpresa com esse joguinho de “dois pesos, duas medidas” praticado a torto e a direito, tanto no campo pessoal, quanto no campo profissional.

Acho estranho, quase bizarro, como o mesmo erro pode receber avaliações tão diferentes dependendo de quem errou e/ou de sua relação com o “julgador”. Por que o erro de um amigo é menos grave do que o de um conhecido ou de um estranho? Se é o mesmo erro… Por que um esquecimento meu é menos importante, menos causador de problemas, do que o seu esquecimento? O que torna as pessoas diferentes se a falha é a mesma?

Eu sei que é apenas uma questão de interesse, eu sei. Minhas perguntas são apenas retóricas. Mas, de qualquer modo, isso me incomoda. Tenho visto tanta coisa sem sentido ultimamente, tanta coisa sem uma lógica clara que, no fundo, tenho minhas dúvida se é somente uma questão de interesse mesmo ou se o problema é falta de caráter das pessoas.

Gente fora da casinha

Sabe aquele dia que você deseja desesperadamente poder fazer algumas coisas fora do (seu) comum? — como rir descaradamente da estupidez/ignorância/infantilidade de algumas pessoas; dar uns tapas na cara de outras, por não suportar gente falsa e puxa-saco; dar um chacoalhão em algumas, para que elas entendam que fazer diferença entre as pessoas não é legal; dar uns tabefes na cabeça de outras tantas, que insistem em falar a respeito de coisas que não sabem; mandar para lugares obscuros pessoas que fingem ser amigas e acham que enganam alguém só porque fazem cara de boazinhas… Então, hoje é um desses dias. Acho que nunca vi tanta gente fora da casinha em um único dia.

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Com Elvis na Paulista – ou Batendo palma pra louco dançar

Tem muita gente que leva a vida no vai-da-valsa, sem se preocupar com nada nem com ninguém. Vive como se a vida fosse a coisa mais banal e, por isso, opta por não esquentar a cabeça com nada. Por outro lado, existem aquelas pessoas que esquentam a cabeça com tudo, que vivem se autoincumbindo de resolver tudo, de salvar o mundo. Acredito que eu esteja no meio termo, me equilibrando entre um e outro, embora, em alguns momentos, tenha mais inclinação para o segundo grupo.

Hoje, por exemplo, eu estava totalmente inserida no grupo 2. Explico: trabalho na Avenida Paulista, uma das mais importantes regiões de São Paulo. Um local onde existe de tudo um pouco (e é essa diversidade que mais me faz amar esse lugar). Na porta de um shopping aqui na avenida, praticamente ao lado do meu escritório, diariamente tem um cover do Elvis. O cara passa horas e horas cantando  Suspicious Minds, Blue Suede Shoes e afins. Hoje, durante o horário de almoço, ele contou com a “participação especial” de dois moradores de rua que, a seu jeito, improvisavam diversas coreografias.

Elvis

(Crédito: Márcia Vilas Boas)

A situação, por si só, poderia ser divertida – havia música e pessoas dançando, sem se importar com os que estavam ao redor. No entanto, enquanto eu acompanhava o desempenho do cantor e seus dançarinos, caiu minha ficha para o seguinte fato: um cara tentando ganhar a vida, a seu modo, e dois moradores de rua, visivelmente com transtornos mentais, eram alvo de deboche. Calculo que houvesse cerca de 50 pessoas paradas ali perto. Algumas fotografavam ou filmavam os “doidos”, como comentou uma moça com seu namorado; outros os apontavam e riam; outros apenas balançavam a cabeça em tom de reprovação.

Fiquei pensando: “será que essas pessoas têm consciência da insensibilidade disso tudo?”. Não apenas por seus pensamentos, que de tão gritantes podiam ser ouvidos por quem estivesse ao lado, mas por todo o contexto que englobou aquela cena. Homens em seus ternos bem cortados e com seus Blackberries em mão, e mulheres bem vestidas, com seus iPhones, bolsas e sapatos caros, cujo valor total poderia suprir a necessidade de alimento desses “doidos” por um bom tempo, ficaram ali, parados, rindo, como se aquelas pessoas estivessem ali apenas para diverti-los, não se lembrando que aqueles três – em especial os moradores de rua – são, antes de serem seus bobos da corte particulares e não remunerados –, seres humanos. Eles estavam, literalmente, “batendo palmas pra louco dançar”.

Senti muita vergonha por esses homens e mulheres “felizes e superiores”, que dedicaram parte de seu tempo para rir da desgraça alheia, como se tudo aquilo – o desequilíbrio mental, a sujeira nos corpos, a falta de senso de autopreservação, a dancinha estilo “clube das mulheres” (com direito a nota falsa de real presa no elástico da bermuda de um deles) – em cima de uma caixa qualquer largada na avenida, fosse mera encenação, como se nada daquilo fosse real.

Fico constrangida, com muito vergonha mesmo, ao ver o rumo que o ser humano está seguindo. Parece que as pessoas perderam a noção de humanidade e a sensibilidade. Desde quando é divertido rir da miséria humana? Por que as pessoas não tentam, pelo menos um pouquinho, se colocar no lugar das outras para ver qual é a sensação? Para mim, é impossível ver coisas assim e achá-las engraçadas. A sensação é o oposto. Aqueles “doidos”, os “bobos da corte da Paulista” são, acima de tudo, seres humanos, gente como eu e você, de carne e sono, e merecem nosso respeito. Não dá para presenciar situação grotesca como essa sem me doer pelo próximo, independente de quem ele seja, e sem perder a fé no ser humano. Não dá…

Pode não gostar, mas respeito é obrigatório

“Não acredito que você gosta de X. Você, que é uma pessoa tão inteligente…”

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Sério que ainda existe gente com esse tipo de mentalidade solta por aí? Não aguento ver pessoas que conseguem reunir, sem esforço, características como prepotência, desrespeito, intolerância e imbecilidade, tudo ao mesmo tempo. Confesso que não sei como lidar com gente assim. Não mesmo.

Acho engraçado ver como algumas pessoas se colocam na condição de juízes, verdadeiros “donos da verdade”, julgando o que os outros fazem, gostam, assistem, leem, a religião que seguem, as roupas que usam… Quem disse que elas realmente podem sair criticando o que é importante/interessante/agradável aos demais? Quem disse que o que elas pensam é tão relevante assim a ponto de “precisarem” (e poderem) sair falando tudo o que passa por suas cabeças? Particularmente, dispenso fortemente a opinião dessas pessoas.

Ouvi algo assim ontem, dentro do metrô, e fiquei pensando “que figurinha sem noção!”. Só porque a outra pessoa não compartilha do mesmo gosto musical ou literário que ela não significa que essa pessoa seja burra, inculta, mentalmente atrasada ou qualquer outra ofensa descabida que se queira fazer. Aliás, diante do comentário feito, sou forçada a acreditar que a “não inteligente” é a pessoa que julgou a inteligência alheia apenas tendo uma banda, no caso, como referência. Ri por dentro quando a “ofendida” não se deixou abater e comentou, na sequência, que além daquela banda e de outras do mesmo estilo, ela também gostava muito de um maestro holandês e a “ofensora” fez cara de “Hein? Não conheço”. Rá!

Seguindo a mesma linha de raciocínio, eu, que conheço o tal maestro e tive a feliz oportunidade de assistir a uma apresentação dele recentemente, poderia me dar o direito de virar para a primeira pessoa e dizer “a julgar por sua crítica, poderia jurar que você era uma pessoa culta e inteligente, mas me enganei”, mas achei melhor não. Apenas ri, interna e externamente (não resisti), ao ver a cara de perdida que a “ofensora”. Foi algo tão autoexplicativo, que dispensou comentários posteriores. Mas, ainda assim, conforme pude notar ao observar o desenrolar da conversa das duas mulheres, ela, mesmo sem ter o que comentar a respeito do “outro” gosto musical da “ofendida”, se manteve irredutível na postura de “eu adoro música popular brasileira e sou melhor que você”.

Fico realmente irritada quando encontro “gentinha” assim no meu caminho (e no caminho dos outros também). Usando-me como exemplo: o fato de eu gostar de Bon Jovi e Guns n’ Roses, de livros Marian Keyes ou de biografias de roqueiros, de seriados enlatados americanos como Gilmore Girls e Arquivo X, e de comédias românticas não fazem de mim – nem daqueles que têm gostos semelhantes ao meu – uma pessoa inculta, descerebrada, alienada nem nada do gênero. Essas classificações enquadram-se muito bem no perfil de uma pessoa como aquela que eu vi no metrô falando bobagem para a outra.

Acredito, verdadeiramente, que já passou da hora de as pessoas aprenderem a cuidar mais da própria vida, “cuidar do próprio rabo”, em vez de ficarem se metendo na dos outros. Gostos não definem quem ou o que uma pessoa é; são apenas gostos. O ser humano é muito mais complexo que isso. Tem gostos, vontades, noções de moral e valores, inclinações pessoais e profissionais… tem muita coisa no pacote. Formular julgamentos baseados em questões tão superficiais quanto ao livro que se lê ou à música que se ouve é tão patética, tão ridícula, que só me resta sentir pena, muita pena, de alguém que pensa assim.

Como lidar?

Enquanto isso, no credenciamento de imprensa…

– Oi, gostaria de me inscrever para cobrir o congresso amanhã.
Claro. Qual o seu nome?
(Fulano de Tal)
E qual é o seu veículo?
É um Uno, desses novos.
… Ah, desculpe, acho que você não entendeu. Estava me referindo ao veículo de comunicação onde você trabalha.
– Ah tá, que
besta eu. Pensei que fosse para liberar o estacionamento.
– Ah… (posso concordar que você é realmente besta? quem falou em estacionamento?)
– Sou atendente da agência X, de publicidade.

Quer dizer… não basta agir de má-fé e tentar se passar por jornalista, ainda tem que soltar uma bobagem dessas.

Amor em tempos de Olimpíada ou Copa

Na TV, uma mulher grita que ama o Brasil, enquanto outra diz que o Brasil “é tudo” – apenas porque ambas acabaram de ver um ginasta medalista olímpico passando perto delas com uma medalha de ouro que, vale lembrar, elas JAMAIS chegarão perto e não tiveram nenhum mérito na conquista.

Por que será que esse “amor sincero” por nosso País – que eu acredito que seja “tudo” mesmo – não se manifesta em momentos verdadeiramente necessários, como o período de eleição, por exemplo? Quem realmente ama seu país manifesta esse amor continuamente, não apenas quando a seleção de futebol, vôlei e afins ganha uma medalha em Olimpíada ou vence a Copa.

Será que o amor dessas pessoas por suas famílias e amigos também é inconstante e só “funciona” mediante estímulo (presentes, por exemplo)? ¬¬