Desaforo

Acho um “desaforo” eu ter tantas dúvidas, tantas perguntas, tantos pensamentos estranhos e confusos, tantas ideias, tantas crises, tantas neuras, tantas inseguranças e incertezas, tantos medos, tantas frustrações, tantos sonhos, tantas preocupações… e não ter ninguém – NINGUÉM – para me explicar o que tudo isso significa, ninguém para me ajudar a entender e enfrentar essas coisas. Porque sozinha, às vezes, isso tudo é sufocante e desolador, é desesperador. 

Sometimes I feel…

Acordei com Under the bridge na cabeça e pensando sobre como esta letra – ou, ao menos, parte dela – e o sentimento que ela retrata são recorrentes por aqui. 

Sometimes I feel like I don’t have a partnerSometimes I feel like my only friend

Como é possível viver em uma cidade como São Paulo, em contato permanente com tantas pessoas e, ainda assim, conseguir se sentir só, sem ter com quem contar? Como é possível passar por uma vida inteira, conhecendo gente aqui e ali, e ter a sensação de que se é alguém avulso no mundo? 

Sinais

Existe algum sinal, algum sintoma, qualquer coisa que sirva como indicação concreta de que uma pessoa está chegando ou já chegou ao seu limite? Dor no peito? Vontade persistente de chorar? Desejo de não sair da cama ou não ouvir a voz de ninguém? Reação exagerada a uma situação de estresse? Sensação de irritação por tudo e por nada? Dores pelo corpo sem motivo aparente? Insônia ou excesso de sono? Vontade de largar tudo? Como saber se chegamos a esse limite?

Sonhe grande

Sonhe grande. 

Não se limite. 

Arrisque-se.

Siga seus sonhos. 

Frases imperativas bonitas e convincentes. Ideias fortes e motivadoras. Incentivos necessários para seguirmos nossas vidas e buscarmos nossos objetivos, ou tentarmos descobrir se, de fato, temos algum objetivo na vida.

Sempre tive certeza de que meu principal objetivo nesta vida era ser jornalista e levar informação aos meus leitores. Além disso, queria escrever e ser lida, queria deixar uma marca positiva naquela pessoa – não importa quem ela fosse. Fiz o que foi preciso para chegar lá e, enfim, me tornei o que eu queria ser.

Escrevi muito. Li muito. Pesquisei muito. Trabalhei de dia, de tarde, de noite e, também, de madrugada; em dias úteis, finais de semana e feriados. Sacrifiquei momentos de lazer ou em companhia da família. Fiz muitas coberturas de eventos. Fechei muitas publicações. Editei muitos textos. Fiz muitas entrevistas. Redigi muitas matérias, notas e artigos. Revisei muito material. Escrevi, escrevi, escrevi… até não sentir mais vontade de escrever. Pelo menos, não as coisas que escrevo para sobreviver. Durante muito anos, escrevi tanto! Mas quase nunca escrevi sobre assuntos que amo e que fossem verdadeiramente do meu interesse.

Hoje, preciso de um novo sonho, de um novo estímulo para continuar a seguir em frente. Quero um novo propósito para a minha vida. Quero continuar escrevendo, porque é isso o que eu sei fazer, porque é isso o que eu amo fazer, mas quero textos que me façam feliz. Textos que me deem prazer em escrever. Textos divertidos, dramáticos, românticos, sensuais, depressivos, infantis, sonhadores… Escrever por amor, não mais por obrigação.

Quero voltar a sonhar grande, a me arriscar, a não me limitar, a seguir meus sonhos. A ter sonhos… Quero voltar a sentir amor pelo que faço. Quero tornar a me emocionar ao ver um texto meu sendo publicado. Quero relembrar o que é receber um elogio, ou mesmo uma crítica, ao publicar um novo texto. Quero mudar a minha rota, replanejar minha vida.

Mas por que é tão difícil recomeçar? Por que é tão complicado considerar a possibilidade de começar do zero, abrir mão do que já se tem (independentemente do que já se tenha) e voltar a ser aprendiz? São muitas inseguranças e poucas (ou nenhuma) respostas. Será que terei sucesso? Será que nadarei, nadarei, nadarei e morrerei na praia? Ou será que alguém lá em cima está me guiando para uma nova vida? Queria uma resposta para essas dúvidas. Queria uma certeza sobre qual caminho seguir… porque, até agora, a única certeza que eu tenho é sobre o caminho que não quero mais seguir.

Quotes about me

Fazia muito tempo que eu não relia as quotes que eu havia postado aqui. De algum modo, eu sentia como se elas não dissessem mais nada – ou, ao menos, não tanto – sobre quem eu sou agora, anos depois. Mas a maioria delas continua fazendo total sentido sobre a minha vida, sobre o meu momento, sobre mim.

“Ninguém espera que puxem abruptamente o seu tapete. Acontecimentos capazes de mudar a vida não costumam se fazer anunciar. Embora o instinto e a intuição possam ajudar dando alguns sinais, pouco podem fazer para preparar você para o sentimento de desarraigamento que se segue quando o destino vira seu mundo de pernas para o ar. Raiva, confusão, tristeza e frustração mesclam-se dentro de você num turbilhão. Leva anos para que a poeira emocional assente, enquanto você se empenha ao máximo apenas para conseguir ver através da tempestade”. [Slash]

“Vivi altos e baixos extremos e enfrentei todos até o fim. Mas quando estão tão próximos que parecem se entrelaçar, se tornam algo alienante. É algo mais também; de repente, o que antes fora familiar fica estranho e nada se mantém estável”. [Slash]

“Eu não vou me desculpar pelo que sou.
Eu não vou me desculpar pelo que necessito.
Eu não vou me desculpar pelo que quero”.
[Frank Mackey (Tom Cruise) em Magnólia]

“(…) Essa maldita vida. / É tão difícil. / Ah Deus! / A vida não é curta, é longa. (…)
[trecho de Magnólia – ? para Phil]

“Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive…” [Florbela Espanca]

“Quando eu olho para trás eu vejo tanto esforço, tanta dedicação, tanto trabalho. Para quê? E a minha vida? A minha vida eu guardei para depois. Mas eu nunca pensei que poderia não haver um depois.” [E Se Fosse Verdade/Just Like Heaven, 2005]

 “… entrei num ritmo frenético de pensamentos e, de repente, dá uma caída e você entra num lugar estranho dentro de você mesma…”

 “Eu quero deixar uma marca. Mas (…) as marcas que os seres humanos deixam são, com frequência, cicatrizes.” [A Culpa é das Estrelas]

O incômodo da incerteza

Se tem uma coisa que me incomoda profundamente é a sensação de incerteza. Incerteza sobre a vida, sobre o trabalho, sobre a família, sobre a saúde, sobre as finanças, sobre o futuro.

Como boa virginiana que sou, gosto das coisas claras, gosto de “cartas na mesa”, com o máximo de detalhes e informações a respeito, o mais organizadas e estáveis possíveis.

Não sou dada a deixar nada por conta do “acaso” – não acho que ele faça um bom trabalho improvisando as situações. Não gosto de dar tiros no escuro, pois sei, por experiência de vida, que a chance de eu acertar ao alvo é mínima – nula, na verdade, já que sou péssima de pontaria. E não gosto de depender do “quem sabe”, do “talvez”, do “pode ser que” e, menos ainda, do tal do futuro. É incerto, é apavorante e pode muito bem simplesmente não acontecer.

Gosto de ter certeza ou, pelo menos, de algo o mais próximo possível disso; gosto de estabilidade, de garantias, de “pé no chão”. Sei muito bem me virar (quase sempre, pelo menos) quando o infame acaso resolve agir e sou obrigada a contornar a situação, mas odeio quando tenho que fazer isso, quando tenho que recomeçar, quando tenho que me virar do avesso para corrigir algo que eu não errei, que eu não mudei, que eu não tive poder para manter como estava. Me angustia a sensação de ter que recomeçar do zero quando eu sei que já estava bem mais avançada e que tinha tudo para me manter indo em frente, mas o acaso, ah, o acaso resolveu mudar as regras do jogo e me derrubou no meio do caminho.

Tenho me sentindo muito incomodada com a incerteza sobre a vida, sobre o trabalho, sobre a família, sobre a saúde, sobre as finanças, sobre o futuro.

Queria poder escrever um texto enorme…

Queria poder escrever um texto enorme, contando tudo o que se passa pela minha cabeça. Falar sobre trabalho, dinheiro, amor, amizades, conquistas, frustrações… especialmente sobre tudo o que está acontecendo neste exato momento comigo. Falar sobre perdas e ganhos, falar sobre a dificuldade de lidar com o ser humano, falar sobre lutas e derrotas, sobre desejos e expectativas, sobre frivolidades, sobre medos e inseguranças, sobre sonhos e desilusões, sobre precisar jogar a toalha em algumas situações, sobre oportunidades que escorrem pelos dedos, sobre algumas injustiças da vida, sobre depressão, sobre perder o tesão por algumas coisas…

Queria poder escrever um texto enorme, que me ajudasse a exorcizar uma série de coisas que tem rondando os meus pensamentos ultimamente. Me livrar de algumas ideias que me fazem mal, de sensações que me deprimem, de situações que não me ajudam a seguir adiante e ter uma vida diferente.

Queria poder escrever um texto enorme, no qual eu conseguisse explicar, com todos os detalhes possíveis, tudo aquilo que eu sonho e, principalmente, tudo aquilo que me aflige. Pessoas que vieram e já se foram de minha vida; pessoas que vieram e ficaram; pessoas que nunca vieram, mas que, sabe-se lá como, ficaram; situações que me amarraram a algumas lembranças e que, por algum motivo, me impedem de seguir em frente em alguns aspectos; marcas que ficaram sem que eu sequer me lembre como elas foram deixadas em mim; amigos que nem sempre foram/são tão meus amigos; colegas que são mais amigos do que eu penso…

Queria poder escrever um texto enorme, contando cada uma das ideias – loucas ou geniais – que se passam pela minha cabeça; cada sentimento bom ou cada dor sentida; cada dúvida ou cada certeza que eu tenho. Mas não dá. Porque, por mais que eu viva em função das palavras, por mais que eu dependa delas para obter o meu sustento, por mais que elas me completem e me façam companhia, elas também já me colocaram em situações delicadas e, quando em mãos “maldosas”, ajudaram a me ferir, ao mesmo tempo em que tinham me ajudado a cicatrizar algumas feridas.

Queria poder escrever um texto enorme e falar sobre tudo isso, mas me falta coragem para expor tudo o que se passa por aqui dentro e, mais ainda, me faltam palavras para explicar tudo isso.