Razão de ser – ou Sobre escrever

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
a as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

O poema é de Paulo Leminski, mas poderia ser meu, porque me representa perfeitamente. ❤

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A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer

Por Ruth Manus para o Estadão

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Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá. Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda. Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar. Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.

Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.

O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens. O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?

Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.

Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.

Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?

Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.

Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.

O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?

E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.

No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.

Escreva

Oito dicas de Neil Gaiman, autor de O oceano no fim do caminho

#1. Escreva.

#2 Escreva uma palavra depois da outra. Encontre a palavra certa, escreva-a.

#3. Termine o que você está escrevendo. Faça o que for preciso para terminar, e termine.

#4. Coloque o texto de lado. Leia fingindo que você nunca leu antes. Mostre-o a amigos cuja opinião você respeita e que gostem daquele tipo de coisa.

#5. Lembre-se: quando as pessoas dizem que algo está errado ou não funciona para elas, estão quase sempre certas. Quando dizem exatamente o que você está fazendo de errado e como corrigir, estão quase sempre erradas.

#6. Corrija. Lembre que, mais cedo ou mais tarde, antes que o texto fique perfeito, você precisa seguir em frente e começar a escrever a próxima coisa. Perfeição é como perseguir o horizonte. Continue escrevendo.

#7. Ria de suas próprias piadas.

#8. A principal regra da escrita é que, se escrever com segurança e confiança suficientes, você pode fazer o que quiser. (Essa pode ser uma regra para a vida, assim como para a escrita.) Então, escreva a sua história como ela precisa ser escrita. Escreva-a com honestidade e conte-a da melhor forma que você puder. Eu não sei com certeza se existem outras regras. Pelo menos, não as que importem…

Ame-se ou deixe-se

(…) quem quiser encontrar defeito em você, vai encontrar, fácil. Portanto, por que se preocupar? Magra, alta, baixa, gorda, cabelo liso, cabelo crespo, bunduda, sem bunda — quem quiser criticar sempre encontrará ótimos motivos. Se você não faz nada pra seguir o padrão, você é desleixada, irresponsável, sem vaidade, nada feminina. Se você faz tudo pra seguir o padrão, você é perua, exagerada, obcecada, siliconada. De um jeito ou de outro, você nunca vai ganhar. So why worry? Be happy. (…) Basear nossa opinião acerca de nós mesmas baseada em quem nos odeia? Não me parece uma decisão sensata. Será que realmente devemos nos deixar abater por opiniões estúpidas sobre nossa aparência? (…) Dane-se o julgamento e a patrulha da sociedade. Quem é ela pra nos julgar? Venham ser livres e compartilhar a praia comigo, lindonas. Tem espaço pra todo mundo.

Lola Alegre

Dignidade

“Quando uma coisa tem um preço, pode por-se em vez dela qualquer outra coisa como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço e, portanto, não permite equivalente, então ela tem dignidade.”  (Immanuel Kant)

Estava terminando uma revisão ontem à tarde quando li essa frase. Achei forte e muito verdadeira, e me fez lembrar de algumas pessoas que passaram por minha vida profissional nos últimos anos e que, infelizmente (para elas próprias), perderam a razão e a dignidade em troca de migalhas, por simples maldade, mero egoísmo, por ego, mesquinhez e vontade desesperada, quase doentia, em aparecer e serem aceitas por pessoas mais medíocres que elas próprias. É uma pena ver como algumas pessoas, muitas vezes com potencial para ser alguém nessa vida, se vendem por tão pouco. Dignidade pode não render nada material, mas nada se compara ao nosso bem-estar, à nossa consciência limpa e tranquila, à nossa moral.

Casos inacabados

Ivan Martins, editor executivo da Revista Época, é, atualmente, um dos escritores que mais gosto de ler. Seus textos falam de amor, sexo e relacionamentos, sempre com sensiblidade, sagacidade e muita honestidade. Gosto disso. Tem sido difícil ver por aí textos e escritores/jornalistas com essas qualidades.

Recentemente, Ivan escreveu sobre casos inacabados e o assunto me interessou bastante. Mais ainda o seguinte trecho:

(…) A rigor, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você, fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim. Um saco. | Se tudo isso parece muito sério, relaxe. Há outro tipo de caso inacabado que não dói. São aquelas pessoas de quem você vai gostar a vida toda, cuja simples visão é capaz de causar felicidade. Elas existem. Você não vai largar a mulher que ama para correr atrás de uma figura dessas, mas, cada vez que ela aparecer, vai causar em você uma insurgência incontrolável de ternura, de saudades, de carinho. O desejo, que já foi imenso, envelheceu num barril de carvalho e virou outra coisa, meio budista. Você olha, você lembra, você poderia querer – mas já não quer. Você fica feliz por ela, e esse sentimento é uma delícia. (…)

Já me vi presa a casos inacabados – quem nunca? Na adolescência, amei muito uma pessoa (foi meu primeiro amor…) e passei anos “acorrentada” à ideia de que ele era o homem certo para mim – mesmo que ele jamais tenha provado essa minha teoria. Hoje, mais madura, tenho consciência de que idealizei a história que gostaria de ter vivido com ele. E perdi meu tempo, gastei sonhos, desejos e esperanças, me frustrei. Um saco.

Já adulta, conheci duas pessoas – dois amigos – que, pelo excesso de proximidade, carinho e afinidade, me deixaram confusa quanto aos meus sentimentos. Por um breve período, cheguei a pensar que estivesse apaixonada por eles, mas, no final das contas, não era nada disso. Não seria capaz de largar nada em minha vida por eles, nem de pedir fizessem o mesmo por mim. Ambos, que hoje estão meio distantes por conta da correria do trabalho, são daquele tipo de caso inacabado que hoje me trazem alegria ao encontrá-los por aí. São pessoas que eu olho, lembro, poderia querer – mas já não quero. Fico feliz por ambos, e esse sentimento é uma delícia.