Cara a cara

Se eu pudesse realizar um desejo hoje, neste momento, certamente seria ter a chance de bater um papo com Deus, cara a cara; e perguntar tudo o que eu gostaria de entender sobre a minha vida. O porquê de muitas coisas que acontecem ou que não acontecem; o porquê de as coisas serem como são; de eu ser como sou; os motivos de eu me sentir como me sinto; de algumas pessoas serem como são comigo… Seria incrível ter esse contato direto com Ele e entender a minha vida. Talvez Ele pudesse me mostrar algum sentido nisso tudo, porque até agora eu ainda não entendi nada…

Por que não nos ensinam a lidar com isso?

Até hoje, por não ter precisado lidar com a perda de um familiar ou amigo, eu nunca havia pensado muito sobre o que isso significava. Por muito tempo, tive a sensação de que esse tipo de situação só acontecia “na casa ao lado” ou em filmes tristes. E, sem dúvida, essa ideia de “isenção” é bem reconfortante. Afinal, foram 33 anos alheia a essa preocupação (embora, confesso, o medo existisse). Mas sejamos realistas: é fato que todo mundo morrerá – independente de idade e de causa. Como dizem por aí, a morte a única certeza que temos nesta vida.

Agora, enfim, isso aconteceu no meu território, com a minha família. E agora eu verdadeiramente percebi que não sei lidar com essa ideia nem com os sentimentos que essa perda trouxe à tona. Aliás, não sou só eu que tenho essa dificuldade.

O conceito de “para sempre” e “nunca mais” parecem não fazer o mesmo sentido de antes. “Para sempre” era como deveria ser a felicidade da mocinha com o mocinho (no filme, na música, na vida real); “nunca mais” servia para se referir a alguma coisa ou experiência que não se pretendia tornar a vivenciar. Só que agora, a isso, foi acrescido de mais uma interpretação: “para sempre” e “nunca mais” determinarão, de hoje em diante, o tempo que separará meu reencontro e de meus familiares com a pessoa que partiu. Para sempre sentiremos saudades, mas nunca mais a veremos. Nunca mais. É esquisito demais pensar assim. Nunca mais ver alguém da sua família, alguém próximo e que você conhece desde que nasceu, que vira-e-mexe estava na sua casa… não faz muito sentido.

Sendo a morte a única certeza que temos desde o nosso nascimento, por que não tratam isso de maneira mais leve e descomplicada? Por que não nos ensinam, desde o início de nossa vida, desde a época de escola, a lidar com a ideia de que, cedo ou tarde, o “Papai do Céu” vai levar lá para cima, para morar com Ele, as pessoas que amamos/gostamos (e as que não amamos ou não conhecemos também)? Por que nos deixam aprender a lidar com a ausência apenas na hora em que ela acontece, meio na marra? Perda enfiada goela abaixo.

Falar sobre morte não é fácil. Longe disso. Especialmente quando envolve alguém de nosso círculo familiar ou de amizade. Mas se é algo certo e inevitável, por que nunca tentaram tornar essa sensação o menos incômoda possível? Por que não nos ensinam a lidar com isso? Como fazer? Não sei, ainda estou descobrindo esse sentimento estranho e amargo, mas deve haver um jeito. Sempre há um jeito para tudo. Porque não dá para encarar uma coisa dessas assim… no susto. É preciso muito preparo emocional para saber enfrentar uma situação tão definitiva e dolorosa como essa.

Gratidão

Neste exato momento, em alguma cidade do Estado de São Paulo, existe uma família que está vivenciando o período de luto pela perda de um ente querido. Ainda assim, mesmo diante de sua perda, essa mesma família, num ato de amor muito mais forte que a dor que eles próprios sentem, optou por salvar vidas e decidiu doar os órgãos desse familiar.

Não sei nada a respeito de quem faleceu – se era homem ou mulher, jovem ou adulto, branco ou negro, alto ou baixinho, se tinha filhos… –, mas sei que essa pessoa e sua família salvaram a vida de meu pai e deram a ele a oportunidade de uma vida plena e saudável, distante de uma máquina de hemodiálise (que durante cerca de seis anos o ajudou a sobreviver e que, agora, passará a ajudar outra pessoa, que até então não teve mesma a oportunidade).

Sei que jamais conhecerei essa família, nem poderei abraçar um a um e dizer “obrigada”, mas certamente essas pessoas estarão em minhas orações para o resto de minha vida.

A vocês, amigos desconhecidos e que agora são parte de minha família, muito obrigada por salvar meu pai.